À Terceira Tentativa com Champix, Finalmente Consegui Deixar de Fumar
À Terceira Tentativa com Champix, Finalmente Consegui Deixar de Fumar
Chamo-me Sofia Vieira, tenho 51 anos e vivo em Lisboa. Fumei durante 28 anos. Tentei deixar de fumar três vezes com Champix. As duas primeiras vezes falhei. A terceira vez resultou. E se há uma coisa que aprendi neste percurso todo é que falhar não significa que se é fraco. Significa que ainda não se encontrou a combinação certa de circunstâncias, apoio e determinação.
Comecei a fumar aos 23 anos, em 1998, quando trabalhava como assistente administrativa numa empresa de seguros em Saldanha. Naquela altura, em Lisboa, fumava-se em todo o lado. Nos escritórios, nos cafés, nos restaurantes. O cigarro fazia parte da paisagem como os eléctricos e as calçadas portuguesas. A minha colega de secretária, a Fernanda, fumava SG Ventil e ofereceu-me um numa tarde particularmente stressante. Aceitei. E pronto, foi assim que começou.
Em poucos meses já fumava um maço por dia. Passados dois anos, já eram quase dois maços. SG Ventil ao princípio, depois passei para Marlboro Light porque achava que fazia menos mal. Que ingenuidade. Fumei durante os meus vinte e muitos, trinta e muitos e quarenta e muitos. Fumei grávida do meu primeiro filho, o Tomás, embora tenha reduzido para cinco cigarros por dia, o que o médico disse que era melhor do que parar de repente e ter o stress da abstinência. Hoje sei que isso era informação desactualizada e sinto uma culpa enorme. Com a segunda gravidez, da Beatriz, consegui parar durante seis meses, mas voltei duas semanas depois do parto.
O tabaco acompanhou-me em todos os momentos da vida. No divórcio, fumava mais. Quando o Tomás teve problemas na escola, fumava mais. Quando fui promovida a chefe de departamento, fumava para celebrar. O cigarro estava sempre presente, como um amigo constante que, na verdade, me estava a matar lentamente.
A primeira tentativa com Champix foi em 2018. Tinha 43 anos e o meu médico de família, o Dr. Henrique Fonseca, no centro de saúde de Benfica, sugeriu-me a vareniclina. Explicou-me como funcionava, que o medicamento bloqueia os receptores de nicotina no cérebro e que, gradualmente, fumar deixaria de dar prazer. Comecei o tratamento certinha. A primeira semana a fumar e a tomar o comprimido, depois a data de cessação.
O problema foi que eu não estava verdadeiramente preparada. Tomava o Champix mas não mudei mais nada na minha vida. Continuava a ir ao café com as colegas que fumavam. Continuava a ter cinzeiros em casa. Não disse a quase ninguém que estava a tentar deixar. Durei cinco semanas sem fumar e depois, numa noite de crise no trabalho, comprei um maço na máquina do café e fumei três cigarros seguidos na paragem do autocarro. Senti-me uma falhada.
A segunda tentativa foi em 2021, durante a pandemia. Parecia o momento perfeito. Estava em teletrabalho, não tinha as pressões sociais do escritório, podia controlar o ambiente. Voltei ao Champix, desta vez com mais convicção. E de facto, as primeiras semanas correram bem. O medicamento fez o seu trabalho. Quando fumava, já não sentia o mesmo prazer. O sabor mudou, tornou-se quase metálico. Parei no dia marcado e aguentei dois meses inteiros.
O que me derrubou foi o isolamento. Sem sair de casa, sem ver amigos, sem rotina normal, comecei a sentir uma ansiedade terrível. O Champix pode ter efeitos secundários no humor e eu sentia-me em baixo. Não procurei ajuda psicológica porque achava que devia conseguir sozinha. Voltei a fumar, primeiro um cigarro à janela da cozinha à noite, depois dois, depois o maço inteiro. Em três semanas estava de volta ao consumo habitual.
Depois dessa segunda falha, passei quase quatro anos a dizer a mim mesma que não valia a pena tentar outra vez. Que eu era daquelas pessoas que simplesmente iam fumar para sempre. O meu cérebro construiu uma narrativa confortável: “Já tentaste, não funciona, aceita.” E eu aceitei. Continuei a fumar, agora já com 50 anos, sentindo os efeitos com mais intensidade. Falta de ar a subir as escadas do metro. Tosse matinal que durava meia hora. A pele com rugas que não condiziam com a minha idade. Bronquites de repetição todos os invernos.
O ponto de viragem aconteceu em Setembro de 2025. A Beatriz, a minha filha de 19 anos, veio ter comigo à cozinha e disse-me com toda a calma: “Mãe, eu estive a pesquisar e tu tens uma probabilidade altíssima de ter cancro do pulmão nos próximos dez anos se não parares.” Mostrou-me estatísticas no telemóvel. Não gritou, não chorou, não fez drama. Apresentou-me factos como se estivesse a apresentar um trabalho da faculdade. E depois disse: “Eu preciso que estejas cá quando eu me casar, quando tiver filhos, quando precisar de ti.”
Foi como se alguém me tivesse deitado um balde de água fria. Não por medo da morte em si, mas pela ideia de não estar presente. De deixar a Beatriz e o Tomás sem mãe por causa de algo que eu podia ter evitado.
Marquei consulta com o Dr. Fonseca na semana seguinte. Ele não me julgou. Disse que a maioria das pessoas precisa de várias tentativas e que cada tentativa ensina algo. Receitou-me Champix novamente, mas desta vez com um plano diferente. Encaminhou-me para uma consulta de cessação tabágica no Hospital de Santa Maria, onde fui acompanhada por uma psicóloga especializada, a Dra. Ana Marques.
A Dra. Ana foi fundamental. Logo na primeira sessão, perguntou-me o que tinha corrido mal nas duas tentativas anteriores. Quando descrevi as situações, ela identificou padrões que eu nunca tinha visto. Na primeira vez, falhei porque não alterei o ambiente. Na segunda, porque não cuidei da saúde mental. Ela ajudou-me a criar um plano completo.
Comecei o Champix em Outubro de 2025. Desta vez, nas primeiras duas semanas em que ainda fumava enquanto o medicamento se acumulava no organismo, já estava a pôr o plano em prática. Tirei todos os cinzeiros de casa. Avisei as colegas de trabalho que ia deixar de fumar e pedi-lhes que não me oferecessem cigarros. Falei com a família toda. Descarreguei a aplicação Smoke Free no telemóvel para acompanhar o progresso. Marquei sessões quinzenais com a Dra. Ana.
O dia D foi 28 de Outubro. Acordei, tomei o meu Champix e não fumei. O medicamento já tinha feito o suficiente para que a vontade física não fosse tão brutal como nas vezes anteriores. Mas a vontade psicológica, essa estava lá. O café da manhã sem cigarro parecia incompleto. A pausa da tarde era vazia. A noite no sofá a ver televisão tinha um buraco.
A Dra. Ana ensinou-me técnicas de respiração para os momentos de crise. Parece simples, mas funciona. Inspirar pelo nariz contando até quatro, segurar contando até quatro, expirar pela boca contando até seis. Repeti este exercício centenas de vezes nas primeiras semanas. Também me ensinou a identificar os pensamentos automáticos. Quando o meu cérebro dizia “só um não faz mal”, eu aprendia a responder: “Um é sempre o início de muitos.”
Houve efeitos secundários do Champix que tive de gerir. Náuseas nas primeiras semanas, que melhoraram quando comecei a tomar o comprimido sempre com comida. Sonhos muito vívidos, intensos, por vezes perturbadores. Acordava a meio da noite com o coração acelerado. A Dra. Ana normalizou tudo isto e ensinou-me a lidar com cada sintoma. O Dr. Fonseca monitorizou-me de perto e ajustou a toma quando necessário.
A diferença desta terceira vez foi o apoio. Não tentei fazer tudo sozinha. O Tomás mandava-me mensagens de incentivo todos os dias. A Beatriz comprou-me um frasco de rebuçados de gengibre para substituir o gesto oral. A minha irmã, a Marta, que vive no Porto, ligava-me todas as noites para perguntar como tinha corrido o dia. No trabalho, a minha colega Sandra, que também tinha deixado de fumar há dois anos, foi a minha âncora nos momentos difíceis.
O primeiro mês foi duro mas suportável. O segundo mês foi mais fácil. No terceiro mês, comecei a sentir as diferenças físicas. Subia as escadas da estação de metro do Marquês de Pombal sem ficar ofegante. A tosse matinal desapareceu. A minha pele começou a ter melhor aspecto. A minha dentista, na consulta de rotina, disse que as minhas gengivas estavam visivelmente mais saudáveis.
Hoje, em Março de 2026, já vão cinco meses sem fumar. Completei o tratamento com Champix em Janeiro e parei a medicação. A vontade de fumar aparece de vez em quando, especialmente quando estou stressada ou quando bebo um copo de vinho ao jantar. Mas é uma vontade que consigo gerir. Já não é um grito. É um sussurro que se desvanece em minutos.
O que mais me surpreendeu foi recuperar o olfacto e o paladar. Lisboa tem cheiros maravilhosos que eu já não sentia. Os pastéis de nata da padaria do bairro têm um sabor que eu tinha esquecido. O cheiro do Tejo quando passo pela Ribeira das Naus. O aroma do café fresco na pastelaria. Tudo isto estava tapado por uma camada de tabaco que anestesiava os meus sentidos.
Financeiramente, a diferença também se nota. Gastava cerca de 180 euros por mês em tabaco. Em cinco meses, já poupei quase 900 euros. Guardei esse dinheiro numa conta separada e vou usá-lo para uma viagem aos Açores com a Beatriz no verão. Fumar não me dava memórias bonitas. Essa viagem vai dar.
Para quem está a ler isto e já falhou uma vez, duas vezes, cinco vezes: não desistam. Cada tentativa não é um fracasso. É uma aula. Eu precisei de três tentativas com Champix para acertar. E o que fez a diferença na terceira não foi o medicamento ser diferente. Fui eu que era diferente. Estava mais preparada, mais apoiada, mais consciente dos meus pontos fracos.
O Champix funciona. É uma ferramenta poderosa. Mas é uma ferramenta, não uma varinha mágica. Precisa de ser combinada com mudança de hábitos, acompanhamento psicológico e uma rede de apoio. Precisa de honestidade connosco mesmas sobre o que nos leva a fumar e o que nos faz recair.
Tenho 51 anos e finalmente sou não fumadora. Demorei 28 anos e três tentativas a chegar aqui. Mas cheguei. E se eu consegui, com o meu historial de falhanços e recaídas, qualquer pessoa consegue. A persistência é a única coisa que distingue quem desiste de quem vence.