Deixei de Fumar aos 53 com Terapia e Goma de Nicotina: 30 Anos de Vício Vencidos
Chamo-me Beatriz Nunes, tenho 53 anos e vivo em Lisboa. Fumei durante trinta anos. Três décadas a alimentar um vício que me custou saúde, dinheiro, relações e autoestima. Mas há um ano e meio que estou livre. Livre graças a uma combinação que me salvou a vida: terapia cognitivo-comportamental e goma de nicotina. Esta é a minha história, contada sem filtros e sem romantismo. Porque parar de fumar não é poético. É sujo, é difícil e é a coisa mais corajosa que alguma vez fiz.
Comecei a fumar em 1993, quando tinha 20 anos. Estava na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a estudar Línguas e Literaturas Modernas, e o ambiente académico daquela época era uma nuvem de fumo permanente. Fumava-se na cantina, fumava-se nos corredores, fumava-se nas esplanadas do Campo Grande. O meu primeiro cigarro foi um Marlboro Light que um colega de turma, o Ricardo, me ofereceu num intervalo entre aulas. Achei que estava a ser sofisticada, intelectual, como as heroínas dos filmes franceses que eu adorava. Que parvoíce. Mas aos vinte anos, achamos que somos imortais.
Em poucos meses já fumava regularmente. O meu cigarro preferido era o Vogue, aqueles cigarros finos e elegantes que vinham numa caixa bonita. Custavam mais do que os outros, mas eu achava que valia a pena. Quando o Vogue se tornou difícil de encontrar em Portugal, passei para o Marlboro Gold e fiquei nele até ao fim.
A minha carreira profissional foi toda construída com um cigarro na mão. Tornei-me professora de Francês no ensino secundário. Dei aulas durante vinte e cinco anos na Escola Secundária Filipa de Lencastre, no centro de Lisboa. E durante todos esses anos, a primeira coisa que fazia quando a campainha tocava para o intervalo era ir para o pátio fumar. O intervalo grande, de manhã, era sagrado: café na sala dos professores e um cigarro cá fora. O intervalo da tarde, outro cigarro. Antes de entrar para a aula, um último. Depois das aulas, mais dois ou três enquanto esperava pelo autocarro na paragem da Alameda.
No auge do meu consumo, fumava um maço e meio por dia. Cerca de trinta cigarros. Os meus colegas de escola sabiam, os meus alunos sabiam, toda a gente sabia. Eu era a professora que cheirava a tabaco. Uma vez, uma aluna do décimo segundo ano escreveu numa redação sobre hábitos de saúde: “A minha professora de Francês fuma muito, mas é simpática na mesma.” Li aquilo e senti um nó no estômago. Mas não parei.
Os meus gatilhos eram uma lista interminável. O café. O vinho. A solidão das noites de inverno em Lisboa, quando a chuva batia na janela e eu ficava na cozinha a fumar e a corrigir testes. O stress das reuniões de departamento. As discussões com o meu ex-marido, o Jorge, de quem me divorciei em 2012 depois de quinze anos de casamento. As preocupações com a minha filha, a Mariana, que durante a adolescência me deu muitas dores de cabeça. Cada emoção era uma razão para fumar. Alegria, tristeza, raiva, tédio, ansiedade: tudo dava cigarro.
Tentei deixar de fumar cinco vezes ao longo destes trinta anos. Cinco. A primeira foi em 2001, quando engravidei da Mariana. Consegui deixar durante sete meses, o tempo da gravidez. Foi a minha tentativa mais longa. Mas voltei a fumar três semanas depois do parto, quando as noites sem dormir e o cansaço me levaram de volta ao cigarro. A segunda vez foi em 2008, com adesivos. Três semanas. A terceira, em 2013, com Champix. Duas semanas, tive náuseas terríveis e desisti. A quarta, em 2018, frio total. Quatro dias. A quinta, em 2021, com um cigarro electrónico. Não resultou de todo, acabei a fumar os dois.
Cada fracasso era uma ferida. Eu sentia-me fraca, patética, incapaz. Uma mulher com formação superior, inteligente, que não conseguia vencer um bocadinho de tabaco enrolado em papel. A vergonha era quase pior do que o vício em si.
A mudança começou em setembro de 2024. A Mariana, que agora tem 24 anos e é psicóloga, veio jantar a minha casa num domingo. Estávamos a comer bacalhau à Brás, que é a especialidade da casa, e ela olhou para mim e disse: “Mãe, eu preciso de te dizer uma coisa. Eu estou grávida.” Fiquei tão feliz que chorei. A minha menina ia ser mãe. Eu ia ser avó. E nesse momento, enquanto a abraçava, ela sussurrou-me ao ouvido: “Mãe, eu quero que estejas cá muito tempo. Para mim e para o teu neto. Por favor, pára de fumar.”
Não foi a primeira vez que me pediam isso. Mas foi a primeira vez que eu senti, verdadeiramente senti, que precisava de fazê-lo. Não por culpa, não por obrigação. Por amor. Por querer estar presente, saudável, viva, para aquela criança que estava a caminho.
Na semana seguinte, marquei consulta no meu médico de família, o Dr. António Mendes, no Centro de Saúde da Graça. Expliquei-lhe o meu historial, as tentativas falhadas, os métodos que já tinha experimentado. Ele ouviu com atenção e disse-me algo que me ficou gravado: “Beatriz, o problema não é só a nicotina. É o que está na sua cabeça. Precisa de tratar as duas coisas ao mesmo tempo.” Encaminhou-me para a consulta de cessação tabágica do Hospital de Santa Marta e recomendou que fizesse acompanhamento psicológico em paralelo.
No Hospital de Santa Marta, a médica, Dra. Helena Silveira, prescreveu-me goma de nicotina Nicorette de 4 mg, dada a minha carga tabágica elevada. Explicou-me como usar: mastigar lentamente até sentir o sabor, depois encostar a goma entre a gengiva e a bochecha durante alguns minutos, e repetir. Não engolir a saliva de imediato. Podia usar até 12 pastilhas por dia no início, reduzindo gradualmente.
Em simultâneo, comecei a terapia cognitivo-comportamental com a Dra. Sofia Amaral, uma psicóloga clínica com consultório no Saldanha. A Dra. Sofia foi extraordinária. Não me tratou como uma fumadora sem força de vontade. Tratou-me como uma pessoa com um padrão comportamental profundamente enraizado que precisava de ser desativado e substituído por novos padrões.
Nas sessões semanais, trabalhámos os meus gatilhos um a um. O café: substituí por chá verde nos primeiros meses. A solidão nocturna: comecei a ligar para amigas em vez de fumar, ou a ouvir podcasts que me distraíam. O stress do trabalho: aprendi técnicas de respiração que, ironicamente, imitam o gesto de fumar, inspirar profundamente e expirar devagar, mas sem o veneno. As emoções difíceis: aprendi a identificá-las, nomeá-las e sentá-las sem precisar de as anestesiar com tabaco.
A data que marquei para deixar de fumar foi 7 de outubro de 2024. Uma segunda-feira. Fumei o meu último cigarro no domingo à noite, na minha varanda em Arroios, olhando para os telhados de Lisboa iluminados pelo luar. Disse adeus àquilo como quem diz adeus a uma relação tóxica que durou tempo demais. Havia saudade, havia medo, mas havia sobretudo alívio.
A primeira semana foi dura. Mesmo com a goma de nicotina, sentia uma inquietação constante. As mãos não sabiam o que fazer. A boca sentia falta de algo. Mastigava a goma e ajudava, cortava aquela urgência violenta, mas o hábito motor persistia. Comprei um pacote de palitos de canela e andava com eles no bolso. Quando me apetecia fumar, punha um palito na boca. Era ridículo, eu sei, uma mulher de 53 anos com um pau de canela na boca. Mas funcionava.
Na escola, o mais difícil foi o intervalo. Os meus colegas fumadores iam para o pátio e eu ficava na sala. Sentia-me isolada. Mas a minha amiga Teresa, professora de Matemática que nunca fumou na vida, começou a fazer-me companhia. Tomávamos chá juntas e conversávamos. A Teresa nunca me julgou. Dizia-me: “Bea, tu és a pessoa mais corajosa que eu conheço.” Eu não me sentia corajosa. Sentia-me desesperada. Mas talvez a coragem e o desespero morem na mesma rua.
A terapia com a Dra. Sofia foi o verdadeiro trunfo. Ela ajudou-me a entender que eu não fumava por prazer. Fumava para fugir de emoções que não sabia gerir. A ansiedade, a solidão, o perfeccionismo, o medo de não ser suficiente. O cigarro era o meu mecanismo de defesa contra tudo isso. Quando compreendi isto, tudo mudou. Não estava a lutar contra o cigarro. Estava a aprender a viver com as minhas emoções sem muletas.
A redução da goma foi gradual. No primeiro mês, usava oito a dez por dia. No segundo mês, reduzi para cinco ou seis. No terceiro mês, para duas ou três. No quarto mês, usava uma por dia, mais por hábito do que por necessidade. No quinto mês, parei completamente. A Dra. Helena acompanhou todo o processo e ficou satisfeita com a minha progressão.
A Mariana foi um apoio constante. Ligava-me todos os dias para saber como eu estava. Mandava-me fotografias das ecografias com mensagens: “O teu neto quer uma avó saudável.” Era manipulação emocional? Talvez. Mas era a melhor manipulação emocional que alguém alguma vez fez comigo.
O meu neto, o Francisco, nasceu em abril de 2025. Quando o segurei pela primeira vez, eu já não fumava há seis meses. As minhas mãos não cheiravam a tabaco. A minha roupa não cheirava a tabaco. O meu hálito era limpo. E quando aquela criança minúscula agarrou o meu dedo, eu pensei: eu consegui. Consegui por ti. Consegui por mim.
Hoje, um ano e meio depois, a minha vida é irreconhecível. Respiro sem dificuldade. Subo as escadas até ao quarto andar do meu prédio sem ofegar. Caminho pelo Castelo de São Jorge e pela Alfama sem parar a cada cem metros. O meu olfacto regressou e com ele o prazer de cozinhar, de sentir o aroma do café sem que ele esteja contaminado pelo cheiro do tabaco. As minhas roupas cheiram a roupa. A minha casa cheira a casa. Pode parecer banal, mas depois de trinta anos a viver num cinzeiro, é extraordinário.
Poupo cerca de 220 euros por mês. Com esse dinheiro, inscrevi-me num ginásio na Avenida de Roma e vou três vezes por semana. Aos 53 anos, estou em melhor forma física do que estava aos 40. Comprei um passe para o Teatro Nacional D. Maria II e vou ao teatro uma vez por mês. Coisas que antes pareciam impossíveis, porque todo o dinheiro e todo o tempo iam para o cigarro.
A terapia com a Dra. Sofia continuo a fazer, agora mensalmente. Já não falamos tanto do cigarro. Falamos de mim. De quem eu sou para além da fumadora. E isso, essa descoberta de mim mesma aos 53 anos, é talvez o maior presente que deixar de fumar me deu.
Se estão a ler isto e pensam que já tentaram tudo, eu digo-vos: talvez não tenham tentado a combinação certa. A goma de nicotina tratou da dependência física. A terapia tratou da dependência emocional. Juntas, foram imbatíveis. Procurem ajuda profissional. Não tenham vergonha. E não desistam de desistir do cigarro. O sexto tentativa pode ser a que resulta. A minha foi.