Como Deixei de Fumar Após 13 Anos com Pastilhas de Nicotina
O meu nome é Ana Oliveira, tenho 36 anos e vivo no Porto. Fumei durante 13 anos, dos 20 aos 33. Hoje, com quase três anos sem tabaco, posso dizer que deixar de fumar foi a melhor decisão que tomei na minha vida. E a pastilha de nicotina Nicorette foi a aliada que me permitiu dar esse passo.
Quero contar a minha história com toda a transparência. Sem dourar a pílula, sem esconder os momentos difíceis. Porque acredito que a honestidade ajuda mais do que qualquer discurso motivacional vazio.
O princípio: uma universitária no Porto
Comecei a fumar em 2010, no primeiro ano da faculdade de Arquitectura na Universidade do Porto. Era uma estudante tímida que queria encaixar-se no grupo. Os colegas fumavam nos intervalos, junto ao rio, com vista para a Ribeira. Parecia tão adulto, tão sofisticado. Alguém me ofereceu um cigarro, um Chesterfield, e eu aceitei.
Nos primeiros meses tossia a cada baforada. O corpo avisava-me. Mas eu insistia. Ao fim de um semestre, já fumava meio maço por dia. Quando acabei o mestrado, em 2015, fumava 15 a 20 cigarros diários. A minha marca passou a ser Vogue, aqueles cigarros finos que eu achava elegantes. Mais tarde, quando comecei a trabalhar e a preocupar-me mais com o dinheiro, passei para os Elixyr, mais baratos.
A fumadora que eu era
O tabaco entranhava-se em tudo. Fumava ao acordar, com o café. Fumava a caminho do atelier onde trabalhava, na zona da Boavista. Fumava nas pausas do projecto, quando o AutoCAD me fazia perder a paciência. Fumava ao telefone com a minha mãe. Fumava antes de dormir, na varanda do meu apartamento em Cedofeita, mesmo no inverno, com a chuva a cair como só no Porto sabe cair.
Gastava cerca de 150 euros por mês em tabaco. Parece pouco comparado com o custo noutros países, mas para o meu ordenado de arquitecta jovem, era significativo. Fazia contas ao final do mês e o tabaco era a terceira maior despesa, depois da renda e da alimentação.
Os sinais no corpo iam-se acumulando. Falta de ar a subir a Rua das Flores. Pele baça, olheiras permanentes. Uma sinusite crónica que me atormentava nos meses frios. O dentista alertou-me para o escurecimento dos dentes e o recuo das gengivas. E a voz, que ficou mais grave e rouca. Eu dizia a brincar que era “a voz sexy de fumadora”. Não tinha nada de sexy.
A motivação: um susto e um sonho
Em janeiro de 2023, dois acontecimentos abalaram-me.
Primeiro, a minha tia Conceição, que vivia em Braga e fumava desde os 18, foi diagnosticada com cancro da laringe. Tinha 58 anos. A operação correu bem, mas ficou com a voz alterada para sempre. Quando a visitei no hospital e a vi tentar falar com dificuldade, senti um medo profundo. Aquela podia ser eu dali a 20 anos.
Segundo, o meu namorado Miguel pediu-me em casamento. Na noite em que me pediu, num restaurante em Foz do Douro com vista para o mar, eu fui fumar à porta entre o prato principal e a sobremesa. Ele esperou-me à mesa, com o anel no bolso, e quando voltei a sentar-me ele disse: “Imagina a nossa vida juntos, sem isto.” Não disse mais nada. Não precisava.
Queria casar-me saudável. Queria ter filhos sem os riscos acrescidos do tabaco. Queria viver uma vida longa ao lado do Miguel. E sabia que, com 15 a 20 cigarros por dia, estava a hipotecar tudo isso.
A ida à farmácia
Fui à Farmácia Aliança, ali na Rua de Santa Catarina, e pedi conselho ao farmacêutico. Ele recomendou-me as pastilhas de nicotina Nicorette de 4mg, dado o meu nível de consumo. Explicou-me como usar: mascar lentamente até sentir um ligeiro formigueiro, depois pousar entre a gengiva e a bochecha, esperar, e repetir. Não era para mascar como uma pastilha elástica normal.
Comprei duas caixas de 30 unidades. Custaram cerca de 25 euros cada. Marquei o dia: 1 de fevereiro de 2023. Uma quinta-feira. Escolhi uma quinta porque queria ter o fim de semana por perto para lidar com os piores momentos da abstinência sem a pressão do trabalho.
Os primeiros dias
No dia 1 de fevereiro, acordei e, em vez de acender o cigarro, coloquei uma pastilha Nicorette na boca. O sabor a menta era forte, quase agressivo. Ao princípio mastiguei depressa demais e senti uma ligeira queimadura na garganta. Aprendi rapidamente a técnica correcta: mastigar devagar, pousar, esperar.
A pastilha não reproduzia o prazer do cigarro. Não havia o ritual de acender, inspirar, ver o fumo. Mas dava ao corpo a nicotina que ele reclamava, e isso tirava a urgência. A vontade de fumar estava lá, mas era uma vontade que eu conseguia gerir.
Os dois primeiros dias foram os mais difíceis. Usei oito pastilhas no primeiro dia, dez no segundo. Andava irrequieta, as mãos não sabiam o que fazer. Comecei a desenhar mais, a preencher cadernos de esboços, a manter as mãos ocupadas. O Miguel comprou-me um cubo de Rubik e eu passava os serões a tentar resolvê-lo. Nunca consegui, mas distraía-me.
As semanas de adaptação
Na primeira semana, consumi cerca de seis a oito pastilhas por dia. Na segunda semana, reduzi para cinco. Não porque me obrigasse, mas porque a necessidade ia diminuindo naturalmente.
O desafio maior era o aspecto social. No atelier, havia uma colega, a Inês, que fumava. Fazíamos as pausas juntas. Quando deixei de fumar, continuei a ir à pausa com ela, mas sem cigarro. Ao princípio era estranho. Ela fumava e eu mascava a pastilha. Mas a Inês foi fantástica. Nunca me ofereceu um cigarro, nunca fumou na minha direcção. Pelo contrário, disse-me: “Quando te vir forte, eu também vou tentar.”
Os fins de semana eram complicados. Eu e o Miguel gostamos de ir ao Café Majestic ao sábado de manhã, tomar um café e ler o jornal. O café pedia o cigarro. Nos primeiros fins de semana, trocámos o Majestic por passeios na Foz. Caminhávamos pela marginal, eu com a minha pastilha, ele ao meu lado. O ar do mar ajudava. O frio do Porto, que normalmente me fazia fumar mais, surpreendentemente ajudava a limpar os pulmões.
A redução gradual
Ao fim de um mês, estava a usar três a quatro pastilhas por dia. Ao fim de dois meses, duas. Comecei a usar as de 2mg em vez das de 4mg. A transição foi suave. O corpo ia-se habituando a doses cada vez menores de nicotina.
Houve uma recaída. Quero ser honesta. Na sexta semana, depois de um dia terrível no trabalho, com um projecto recusado por um cliente difícil, saí do atelier furiosa e comprei um maço de cigarros na tabacaria da esquina. Fumei dois. E a seguir atirei o maço ao lixo.
Esses dois cigarros não me souberam bem. Tinham um sabor estranho, quase metálico. O corpo já não os queria. E mentalmente, em vez de me sentir derrotada, senti uma confirmação: o tabaco já não me dava prazer. Estava a fumar por hábito, não por gosto. E esse hábito podia ser quebrado.
Contei à minha farmacêutica na consulta seguinte. Ela disse-me: “Um deslize não é uma recaída. Volte ao plano.” E voltei.
A libertação
Ao fim de três meses, usei a última pastilha. Era início de maio de 2023. A primavera no Porto, com as árvores a florir nos jardins do Palácio de Cristal, parecia uma metáfora perfeita. Algo novo a nascer.
Nos primeiros dias sem pastilha, senti uma vontade ligeira, uma saudade mais do gesto do que da substância. Mas era efémera. Passava em segundos. O mais difícil já tinha ficado para trás.
O que mudou em mim
As transformações foram profundas. A sinusite crónica desapareceu quase por completo. Os dentes, após uma limpeza profissional, ficaram visivelmente mais brancos. A pele ganhou vida. Uma amiga disse-me: “Ana, pareces outra.” E eu sentia-me outra.
Comecei a praticar yoga no Jardim do Morro, em Gaia, ao domingo de manhã. Algo que antes era impensável porque a falta de ar me impedia de manter as posições de respiração. Agora respiro fundo, plenamente, e sinto o ar a entrar e a sair sem obstáculos.
O Miguel e eu casámos em setembro de 2023. No dia do casamento, na Igreja de São Francisco, eu estava radiante. Não só por ser noiva, mas por saber que subia àquele altar como uma mulher livre. Livre do tabaco, livre da dependência. Nas fotografias, os meus dentes brancos brilham no sorriso. A minha pele está luminosa. Tenho ali a prova visual da minha transformação.
A conta que vale a pena fazer
Em quase três anos sem fumar, poupei mais de 5.000 euros. Com parte desse dinheiro, o Miguel e eu fizemos uma viagem aos Açores que tínhamos adiado durante anos. Passei uma semana a respirar o ar mais puro que alguma vez entrou nos meus pulmões, a caminhar por trilhos na Lagoa do Fogo, a mergulhar nas piscinas naturais de São Miguel. Cada inspiração era uma celebração.
Conselho para quem quer deixar de fumar
A pastilha de nicotina não é glamorosa. Não há nada de elegante em mascar uma pastilha medicinal durante semanas. Mas funciona. Dá ao corpo a nicotina que pede enquanto se quebra o hábito comportamental. E quando se reduz gradualmente, o corpo adapta-se sem o choque brutal da paragem abrupta.
Algumas coisas que aprendi: Não tentem fazer tudo ao mesmo tempo. Não é preciso deixar de fumar e começar uma dieta e inscrever-se no ginásio no mesmo dia. Concentrem-se numa batalha de cada vez. Aceitem que haverá dias maus. Encontrem um aliado, alguém que vos apoie sem julgar. E se houver um deslize, não desistam. Um cigarro não apaga semanas de esforço.
A Inês, a minha colega do atelier, deixou de fumar seis meses depois de mim. Usou o mesmo método. Hoje somos duas ex-fumadoras que fazem as pausas do trabalho com um chá em vez de um cigarro. E a conversa continua a ser igualmente boa.
O meu nome é Ana Oliveira. Fumei durante 13 anos. E hoje, a única coisa que arde nos meus lábios é o vento do Atlântico quando passeio pela Foz com o Miguel. E isso, sim, é sofisticado.