34 Anos a Fumar e Deixei de Uma Vez: A Minha Vitória no Frio Total
Chamo-me António Alves, tenho 57 anos e sou de Lisboa. Sou electricista de profissão, trabalho por conta própria há mais de 20 anos. Fumei durante 34 anos, desde os 21 até aos 55. Dois maços por dia, todos os dias, sem excepção. E num dia de Novembro de 2023, parei. De uma vez. Sem comprimidos, sem adesivos, sem pastilhas. No frio total, como se diz. E nunca mais voltei.
Sei que parece improvável. Um homem que fumou 34 anos, 40 cigarros por dia, a parar de repente e a aguentar. Mas aconteceu. E quero contar como, porque a minha história pode dar coragem a quem pensa que já é tarde demais.
Uma vida inteira a fumar
Comecei a fumar em 1989. Tinha 21 anos e fazia o serviço militar em Mafra. No quartel, toda a gente fumava. Era a forma de passar o tempo, de criar camaradagem, de combater o tédio. Alguém me deu um SG Gigante e pronto. A partir dali, nunca mais parei.
Depois do serviço militar, entrei no ofício de electricista com o meu tio Joaquim, em Benfica. O trabalho era físico, passava o dia em obras, a puxar cabos, a abrir roços nas paredes. Nas pausas, fumava. No almoço, fumava. A caminho de casa, no meu Renault Express, fumava. O cigarro estava em todo o lado.
Com o tempo, a marca foi mudando. Comecei nos SG, passei para os Português Suave (que de suave não tinham nada), depois para os Marlboro. Nos últimos 15 anos eram Marlboro Red, um maço de manhã e outro à tarde. Quarenta cigarros por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano. Faço as contas e chego a números que me fazem tonturas: mais de 400 mil cigarros na vida.
O electricista que não conseguia subir escadas
Aos 40 anos, já sentia os efeitos. Subia ao segundo andar de uma obra e tinha de parar para recuperar o fôlego. Aos 45, a tosse matinal tornou-se crónica. Tossia durante dez minutos todas as manhãs, um ritual tão habitual como escovar os dentes. A minha mulher, a Fátima, acordava com o barulho e ficava calada, a olhar para o tecto, a sofrer em silêncio.
Aos 50, tive a primeira crise de falta de ar a sério. Estava numa obra em Cascais, a fazer a instalação eléctrica de um apartamento no quarto andar sem elevador. Carreguei uma bobina de cabo e, quando cheguei ao topo, não conseguia respirar. Sentei-me no chão, a arfar, com o coração a bater tão forte que o sentia na garganta. O meu ajudante, o Ricardo, quis chamar uma ambulância. Eu recusei. Teimoso como um burro.
Os gastos ao longo de 34 anos foram astronómicos. A preços actuais, um maço de Marlboro custa cerca de 6 euros em Portugal. Dois maços por dia, 12 euros. Ao mês, 360 euros. Ao ano, mais de 4.300 euros. Em 34 anos, mesmo ajustando para preços mais baixos no passado, devo ter gasto bem mais de 100 mil euros. Uma casa pequena no Alentejo. Um apartamento em Setúbal. Tudo em fumo.
As tentativas falhadas
Tentei parar cinco vezes ao longo dos anos. Cinco vezes, todas no frio total, porque eu recusava qualquer ajuda. Achava que usar adesivos ou comprimidos era para fracos. Que um homem a sério parava pela força de vontade e pronto. Mentalidade estúpida, reconheço agora. Mas era a minha.
A mais longa dessas tentativas durou 23 dias, em 2015. Estava a correr bem, até que fui a um jantar de ex-colegas do quartel num restaurante em Alfama. O vinho correu, as memórias vieram, e quando dei por mim tinha um cigarro na mão. Nessa noite fumei meio maço e no dia seguinte já tinha voltado ao normal.
Cada falha reforçava a minha convicção de que não era capaz. “Já fumei tempo demais”, dizia eu. “Já não vale a pena.” A Fátima ouvia e calava-se. Os meus filhos, o Nuno e a Margarida, já tinham desistido de me pedir para parar.
O dia 14 de Novembro de 2023
O que aconteceu nesse dia é simples de contar, mas mudou tudo.
Estava a fazer um serviço em Alfragide, a instalar quadros eléctricos numa loja nova. Durante a pausa do almoço, fui ao café ao lado. Sentei-me, pedi uma sopa e uma bica, e acendi um cigarro. Ao meu lado, numa mesa, estava um senhor mais velho, ligado a uma botija de oxigénio portátil. Tinha tubos no nariz e respirava com dificuldade. Estava a tentar comer a sopa, mas mal conseguia segurar a colher porque as mãos tremiam.
Olhei para ele. Olhei para o meu cigarro. E tive uma visão tão clara como um relâmpago: aquele homem era eu dali a dez anos. Se continuasse, aquele seria o meu futuro. Botija de oxigénio, mãos a tremer, incapaz de comer uma sopa em paz.
Apaguei o cigarro. Deixei o maço na mesa do café. Paguei e saí. E nunca mais fumei.
A guerra dos primeiros dias
Se das outras vezes tinha sido difícil, desta foi brutal. Porque o corpo estava habituado a 40 cigarros por dia, e de repente recebeu zero. A abstinência física foi violenta.
Nas primeiras 24 horas, a vontade era incessante. Cada minuto parecia uma hora. As mãos não paravam quietas. Alternava entre suores e calafrios. Tinha um apetite voraz, comia tudo o que encontrava. A Fátima fez um bolo de laranja nessa noite e eu comi metade sozinho.
Nos dias dois e três, a irritabilidade atingiu o pico. Não consegui trabalhar, cancelei os serviços dessa semana. Ficava fechado em casa, a andar de um lado para o outro, a beber água, a mastigar palitos. Sim, palitos de dentes. Ter algo na boca ajudava. Gastei duas caixas de palitos nessa semana.
O sono desapareceu por completo durante quatro noites. Ficava na cama às escuras, de olhos abertos, a pensar em cigarros. O corpo inteiro pedia nicotina. Era como ter sede e não poder beber água. A tentação era enorme. O maço de cigarros mais próximo estava na tabacaria a 200 metros. Mas eu agarrava-me à imagem daquele homem no café com a botija de oxigénio. Essa imagem salvou-me.
A primeira semana
Ao quinto dia, algo mudou. A vontade continuava, mas era diferente. Vinha em ondas, já não era constante. Uma onda durava dois ou três minutos e depois passava. Comecei a cronometrar no relógio. “Aguenta três minutos”, dizia a mim mesmo. E quando os três minutos passavam, a vontade ia-se embora.
Ao sétimo dia, notei que já não tossia de manhã. Sete dias. Sete dias foram suficientes para a tosse que me acompanhou durante 15 anos desaparecer. Disse à Fátima: “Não tossi esta manhã.” Ela olhou-me e, pela primeira vez em anos, vi-lhe lágrimas nos olhos. “Já sei”, disse ela. “Também reparei.”
O primeiro mês
Voltei ao trabalho na segunda semana. Foi difícil. Nas obras, há sempre alguém a fumar. O cheiro do tabaco perseguia-me. Mas encontrei estratégias. Quando a vontade apertava, ia lavar as mãos. Parece estranho, mas o acto de lavar as mãos, a água fria, a sensação de limpeza, funcionava como um reset mental.
O Ricardo, o meu ajudante, que também fumava, começou a ter o cuidado de não fumar à minha frente. Nunca lhe pedi isso. Fez por iniciativa própria. Pequenos gestos assim fazem diferença.
O apetite aumentou muito no primeiro mês. Engordei quatro quilos. A Fátima, que é excelente cozinheira, começou a fazer refeições mais equilibradas sem eu pedir. Menos carne vermelha, mais peixe grelhado, mais legumes. Sopa todos os dias. A comida do Alentejo, de onde ela é originária, refeita de forma mais leve. Um cação com grão sem ser frito, por exemplo.
A família como âncora
Quando o Nuno e a Margarida souberam que eu tinha parado, ficaram desconfiados. O Nuno, com a sua maneira directa, disse: “Pai, já foram cinco vezes. O que é diferente agora?” Eu respondi: “Agora é a sério.”
Ao fim de um mês, começaram a acreditar. Ao fim de dois, o Nuno veio a casa com uma garrafa de Barca Velha, um vinho que eu adoro mas que custa uma fortuna. “É para celebrar”, disse ele. Abrimos a garrafa ao jantar. Bebi o vinho sem fumar. E pela primeira vez, saboreei o vinho a sério. As notas, os aromas, as camadas de sabor. Trinta e quatro anos a beber vinho e nunca o tinha sentido assim.
A Margarida, que é fisioterapeuta, fez-me um plano de exercícios simples para casa. Caminhadas, alongamentos, exercícios de respiração. Ao fim de três meses, eu já caminhava uma hora por dia no Parque de Monsanto sem parar.
A Fátima foi a mais silenciosa e a mais presente. Nunca fez festa, nunca disse “eu bem te disse”. Simplesmente estava ali. Quando eu ficava nervoso, trazia-me um chá. Quando eu não conseguia dormir, sentava-se ao meu lado no sofá sem dizer nada. Trinta anos de casamento e ela sabia exactamente o que eu precisava: presença sem pressão.
A transformação
As mudanças foram aparecendo uma a uma, como camadas. O olfacto regressou com uma intensidade surpreendente. Os cheiros de Lisboa, que eu já não sentia, voltaram: o marisco na Rua das Portas de Santo Antão, as castanhas assadas no Rossio no inverno, o perfume das glicínias em Abril.
A respiração mudou radicalmente. Ao fim de seis meses, já subia quatro andares sem parar. Ao fim de um ano, voltei a jogar à bola com os meus netos no Jardim da Estrela. Eu, que não jogava com os meus próprios filhos porque ficava sem ar.
A pele mudou. A Fátima reparou antes de mim: “Tens outra cara, António. Até pareces mais novo.” O dentista ficou impressionado com a melhoria das gengivas.
O dinheiro, esse, notou-se logo. Trezentos e sessenta euros por mês que ficavam no bolso. No primeiro ano, poupei mais de 4.300 euros. Usámos o dinheiro para fazer obras na casa de férias que temos no Alentejo, em Mértola. Uma casa que cheirava a tabaco e que agora cheira a cal fresca.
Dois anos depois
Faço 57 anos este ano e sinto-me melhor do que me sentia aos 47. É uma afirmação forte, mas é verdadeira. A espirometria que fiz recentemente mostra uma melhoria de 20% na função pulmonar. O médico de família disse-me que o corpo tem uma capacidade de recuperação que impressiona, desde que lhe demos a oportunidade.
Já não penso em cigarros no dia a dia. Aparecem de vez em quando, como uma memória distante. Alguém acende um ao meu lado e eu sinto o cheiro, mas já não sinto desejo. É como o cheiro de um perfume de alguém que já não amamos: reconhecemos, mas não nos toca.
O Ricardo, o meu ajudante, parou de fumar seis meses depois de mim. Inspirado, disse ele. Usa adesivos, o que eu respeito totalmente. Cada um sabe o caminho que lhe serve.
Para quem acha que é tarde demais
Se tens 50, 55, 60 anos e achas que já fumaste tempo demais para valer a pena parar, estás enganado. Eu fumei 34 anos. Mais de metade da minha vida. E parei. E os benefícios foram imediatos e continuam a crescer.
Não interessa o método. Interessa a decisão. Eu parei no frio total porque era assim que o meu feitio me levava. Mas se precisas de adesivos, comprimidos, pastilhas, acompanhamento, usa. Não há fraqueza em pedir ajuda. A única fraqueza é desistir de tentar.
Chamo-me António Alves. Fumei durante 34 anos. E hoje, aos 57, estou a viver a melhor fase da minha vida. Se eu consegui, acredita: tu também consegues.