Guide

35 Anos a Fumar e os Adesivos de Nicotina Que Me Devolveram a Vida

7 min read Updated March 29, 2026

35 Anos a Fumar e os Adesivos de Nicotina Que Me Devolveram a Vida

O meu nome é Rodrigo Cardoso, tenho 58 anos e vivo em Lisboa. Fumei durante 35 anos, dos 23 aos 58. Deixei de fumar com a ajuda de adesivos de nicotina NiQuitin e esta é a história de como um homem que fumou mais de metade da vida conseguiu finalmente libertar-se.

Comecei a fumar em 1988, quando cumpria o serviço militar obrigatório. Tinha 23 anos e tinha acabado de licenciar-me em economia pela Universidade de Lisboa. O serviço militar era uma realidade para os jovens portugueses da minha geração. Nas casernas, o cigarro era moeda corrente. Fumava-se para passar o tempo, para combater o tédio, para criar camaradagem. O meu primeiro cigarro foi um SG Gigante que um colega de pelotão me deu numa noite fria em Mafra. Tossi tanto que os outros se riram. Uma semana depois já não tossia. Um mês depois já comprava os meus próprios maços.

Quando saí do serviço militar, o cigarro veio comigo para a vida civil. Entrei para um banco, o antigo BPA, como analista financeiro. O sector bancário em Lisboa nos anos noventa era um mundo de fatos cinzentos, gravatas apertadas e muito tabaco. Fumava-se nos gabinetes, nas salas de reunião, nos corredores. O cinzeiro de vidro era um objecto de escritório tão comum como a caneta ou a calculadora.

Ao longo de 35 anos, fumei de tudo. SG Gigante, depois Português Suave durante anos, depois passei para Camel quando me pareceu mais sofisticado, e nos últimos quinze anos fixei-me no Winston Blue. No pico do meu consumo, fumava dois maços por dia. Dois maços. Quarenta cigarros. Se fizer as contas ao longo de 35 anos, são números que preferem não ser contados.

Casei aos 30 com a Cristina, que tolerou o meu tabagismo durante décadas. Ela nunca fumou, mas nunca me deu ultimatos. Pedia-me para fumar à janela, depois pedia-me para fumar na varanda, depois pedia-me para fumar fora de casa. Eu ia cedendo nesses pequenos territórios, mas nunca cedi no principal. Tivemos dois filhos, o Ricardo e a Catarina, que cresceram a ver o pai fumar na varanda a toda a hora, em todas as estações.

A minha carreira na banca correu bem. Fui subindo, cheguei a director de departamento, ganhava bem, vivia confortavelmente. O cigarro era a minha constante. Em todas as promoções, em todas as crises financeiras, em todas as reestruturações bancárias que vivi, o Winston Blue estava lá. Quando o BPA foi absorvido pelo BPI, fumei mais. Quando a crise de 2008 abalou o sector, fumei mais. Quando a troika chegou a Portugal e o país entrou em austeridade, fumei mais.

Os problemas de saúde foram aparecendo como era previsível. Aos 45, diagnosticaram-me DPOC em estado inicial. Doença pulmonar obstrutiva crónica. O pneumologista, o Dr. Nuno Teixeira, no Hospital da Luz, mostrou-me os resultados da espirometria e disse com todas as letras: “Sr. Rodrigo, se continuar a fumar, aos 65 vai precisar de oxigénio em casa.” Fiquei assustado. Reduzi de dois maços para um. Mas não parei.

Aos 50, tive uma crise de angina de peito. Fui de ambulância para o Hospital de São José. Fizeram cateterismo e encontraram uma artéria com 40% de obstrução. Não era para stent, mas era um aviso sério. O cardiologista disse que se eu não parasse de fumar e não mudasse a alimentação, o próximo episódio poderia ser pior. Parei durante três semanas. Depois voltei. A dependência é mais forte do que o medo. Parece contraditório, mas é a verdade.

A mudança verdadeira começou em Junho de 2025, e veio de onde eu menos esperava. A Catarina, a minha filha de 26 anos, ficou grávida. O meu primeiro neto estava a caminho. E de repente, a ideia de não estar cá para ver essa criança crescer tornou-se insuportável. Não era a minha morte que me assustava. Era a ausência. Era a cadeira vazia no Natal. Era a fotografia na estante em vez do avô a brincar no chão.

Voltei ao Dr. Teixeira e disse-lhe que desta vez queria mesmo parar. Ele avaliou a minha situação, considerou o historial de DPOC e a angina, e recomendou adesivos de nicotina. Disse que para o meu caso, com tantos anos de consumo pesado, parar a frio seria arriscado e que a reposição gradual com adesivos era mais segura e tinha boa taxa de sucesso para fumadores de longa data.

Comecei com os adesivos NiQuitin 21mg, a dose máxima. A instrução era colocar um adesivo novo todas as manhãs, no braço ou no peito, e trocar de sítio a cada dia para evitar irritação na pele. O primeiro dia com o adesivo e sem cigarro foi estranho. A nicotina estava lá, a ser libertada lentamente através da pele, mas faltava todo o ritual. Faltava o gesto de levar o cigarro à boca. Faltava o clique do isqueiro. Faltava a primeira baforada. Faltava o fumo a sair.

O Dr. Teixeira tinha-me avisado que os adesivos tratam a dependência química mas não a dependência comportamental. Para isso, encaminhou-me para um grupo de apoio no Centro de Saúde de Alvalade, coordenado pela enfermeira especialista Dra. Filipa Rocha. O grupo reunia-se todas as quartas-feiras às seis da tarde. Éramos oito pessoas, todas a tentar deixar de fumar, todas com histórias diferentes mas com o mesmo inimigo.

O grupo foi essencial. Ouvir outras pessoas a descrever exactamente o que eu sentia normalizou a minha experiência. Havia um senhor de 64 anos, o Sr. Joaquim, que fumava há 42 anos. Havia uma professora de 38 anos que fumava há 15. Havia um motorista de 55 que fumava há 30. Todos a lutar, todos a apoiar-se mutuamente. Quando alguém tinha uma semana difícil, o grupo estava lá. Quando alguém celebrava um mês sem fumar, todos batiam palmas.

As primeiras quatro semanas com os adesivos de 21mg foram relativamente estáveis do ponto de vista físico. A nicotina do adesivo controlava a abstinência. Mas psicologicamente, cada dia era um combate. Os momentos mais difíceis eram depois do jantar, quando eu costumava fumar na varanda a olhar para a rua, e com o café no Café A Brasileira em Belém, onde ia todas as manhãs de sábado há vinte anos.

Para lidar com o gesto, comecei a fazer algo que pode parecer ridículo mas funcionou: palitos de canela. Levava palitos de canela no bolso e quando a mão pedia algo para segurar, eu pegava num palito. Não era a mesma coisa, obviamente, mas dava ao cérebro algo para fazer enquanto a vontade passava.

Na quinta semana, passei para os adesivos de 14mg conforme o plano do Dr. Teixeira. Senti a diferença. A dose menor significou que alguns picos de vontade ficaram mais intensos. Mas a essa altura eu já tinha desenvolvido mecanismos para lidar com eles. A respiração profunda, a caminhada rápida, o palito de canela, a chamada para um colega do grupo de apoio.

Na nona semana, passei para os adesivos de 7mg. Esta foi a fase mais delicada. O corpo já se estava a habituar a funcionar com pouca nicotina, mas ainda a pedia. Os sonhos vívidos, que são um efeito secundário conhecido dos adesivos, intensificaram-se nesta fase. Sonhava que estava a fumar e acordava em pânico, a verificar se tinha realmente fumado. A Cristina ria-se e dizia: “Não fumaste, Rodrigo, foi só um sonho.”

Na décima segunda semana, retirei o último adesivo. Lembro-me do dia. Era uma terça-feira de Setembro. Acordei, não coloquei adesivo e disse à Cristina: “Hoje é o dia. Sem nada.” Ela abraçou-me e disse: “Estou aqui.” Os primeiros dias sem adesivo foram desconfortáveis mas não insuportáveis. Uma leve inquietação, uma vontade difusa que aparecia e desaparecia. Nada comparado ao que teria sido parar a frio depois de 35 anos e dois maços por dia.

Em Novembro de 2025, a Catarina teve o bebé. O meu neto, o Francisco. Fui ao Hospital de Santa Maria, entrei na maternidade e peguei-o ao colo pela primeira vez. Um ser minúsculo, com as mãos fechadas e os olhos apertados. E eu estava lá. Com os pulmões a funcionar, o coração a bater, as mãos firmes, sem cheirar a tabaco. Estava lá. E esse foi o momento em que soube que tinha valido a pena cada minuto de sofrimento.

Agora, em Março de 2026, já vão nove meses sem fumar. A DPOC estabilizou. O Dr. Teixeira disse que a função pulmonar não vai voltar ao normal, que o dano de 35 anos é parcialmente irreversível, mas que parar impediu que a doença progredisse. O meu risco cardiovascular reduziu significativamente. Consigo caminhar de Belém ao Cais do Sodré sem parar para recuperar o fôlego, algo que era impensável há um ano.

A Cristina diz que estou diferente. Não só fisicamente, mas no humor, na disposição. Durmo melhor. Acordo com mais energia. Tenho paciência para brincar com o Francisco no chão da sala, algo que com a falta de ar e a tosse crónica de antes seria impossível.

Gastava quase 300 euros por mês em tabaco. Em nove meses, poupei mais de 2700 euros. Esse dinheiro foi para uma conta de poupança que abri em nome do Francisco. Quando ele crescer, vai saber que o avô deixou de fumar por causa dele e que o dinheiro que gastava em veneno se transformou num investimento no futuro.

Para quem fuma há décadas e acha que já é tarde demais: não é. Eu fumei 35 anos. Mais de metade da minha vida. E consegui parar. Os adesivos de nicotina foram fundamentais porque me permitiram fazer uma transição gradual, semana a semana, dose a dose, até chegar ao zero. Não foi glamoroso. Não foi fácil. Mas foi possível. E se foi possível para mim, é possível para qualquer pessoa.

Tenho 58 anos, sou avô e sou livre do tabaco. Não há conquista profissional, não há título, não há reconhecimento que se compare a isto.