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Parei de Fumar no Frio Total Depois de 29 Anos: Minha História de Vitória

7 min read Updated March 29, 2026

Meu nome é Pedro Costa. Tenho 52 anos e sou carioca da gema, nascido e criado na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Durante 29 anos da minha vida, eu fumei. Comecei aos 23 e parei aos 51. E quando digo que parei, foi no frio total. Sem adesivo, sem remédio, sem chiclete de nicotina. Só eu contra o vício, olho no olho. E venci.

Sei que muita gente fala que parar no frio total é loucura, que as chances de recaída são maiores, que existem métodos melhores. E eu respeito todas as formas de parar. Mas quero contar minha história porque pra mim, depois de tentar de tudo, o frio total foi o único caminho que funcionou. E se funcionou pra mim, pode funcionar pra alguém que esteja lendo isso agora.

O cara que fumava em todo lugar

Eu era daqueles fumantes que não tinham filtro. Fumava em qualquer lugar, a qualquer hora. Acordava de manhã no meu apartamento na Tijuca, e antes de escovar os dentes, já acendia o primeiro cigarro na varanda. Tomava café fumando. Ia pro trabalho fumando. No ponto de ônibus, no intervalo, no almoço, na volta pra casa. Eu era motorista de táxi, e fumava o dia inteiro dentro do carro. Os passageiros que não gostassem, paciência. Quando veio a proibição, passei a fumar nos intervalos, mas compensava fumando o dobro.

Minha marca era Lucky Strike. Quando não achava, ia de Continental ou Free. Nos últimos anos, fumava quase dois maços por dia. Quarenta cigarros. Quarenta vezes por dia eu levava fumaça pros pulmões. Quando faço essa conta hoje, me dá um arrepio.

Gastava mais de mil reais por mês com cigarro. Mil reais que faziam falta. Sou divorciado, tenho dois filhos, o Rafael de 24 e a Camila de 19. Pagava pensão, aluguel, e ainda tinha que sustentar esse vício absurdo.

Os estragos que o cigarro fez

Aos 40 anos, eu já era aquele cara que tossia toda manhã como se estivesse arrancando os pulmões. A chamada tosse do fumante. Eu normalizei aquilo. “Ah, é normal, todo fumante tosse.” Não é normal. É o corpo gritando pedindo ajuda.

Aos 45, tive um episódio que me assustou. Estava dirigindo o táxi pela Linha Vermelha quando senti uma dor forte no peito. Parei no acostamento, achando que estava tendo um infarto. Fui pro Hospital Souza Aguiar de ambulância. Não era infarto, era uma crise de ansiedade combinada com pressão alta. Mas o médico me disse: “Senhor Pedro, com esse nível de tabagismo, o infarto é questão de tempo.”

Continuei fumando.

Aos 48, minha voz ficou rouca permanentemente. Fiz exames e descobri que tinha nódulos nas cordas vocais. “Causados pelo tabagismo”, disse o otorrino. Continuei fumando.

É isso que o vício faz. Você sabe que está se matando e continua. Não é falta de informação. É uma prisão química.

As tentativas anteriores

Tentei parar quatro vezes antes de conseguir.

A primeira vez, em 2010, tentei com adesivos. Durei três semanas. Quando tirei o adesivo, a vontade voltou com tudo e eu não aguentei.

A segunda vez, em 2013, tentei com chiclete de nicotina. Fiquei viciado no chiclete. Mascava dez por dia e ainda fumava escondido. Pior dos dois mundos.

A terceira vez, em 2016, fui num grupo de apoio no INCA, ali no Centro. As reuniões eram boas, mas eu não estava pronto. Parei por duas semanas e voltei depois de um dia especialmente estressante no trânsito.

A quarta vez, em 2019, tentei o vaporizador. Achei que ia ser a solução moderna. Fiquei dois meses no vape e depois comecei a usar os dois: vape e cigarro. Gastando o dobro.

O dia em que tudo mudou

Em maio de 2025, minha filha Camila me ligou chorando. Meu pai, seu Roberto, tinha sido internado no Hospital Cardoso Fontes com câncer de pulmão. Meu pai fumou a vida inteira. Setenta e seis anos, e o cigarro finalmente cobrou a conta.

Fui pro hospital. Vi meu pai naquela cama, com tubo de oxigênio, magro, fraco. Um homem que sempre foi forte, que trabalhava na construção civil, que carregava saco de cimento no ombro. Ali, reduzido àquilo. Ele me olhou e disse, com a voz fraca: “Pedro, larga essa porcaria. Não fica como eu.”

Saí do hospital, sentei num banco ali na praça, e acendi um cigarro. Fumei olhando pro nada. E naquele cigarro, eu decidi: era o último. Não amanhã. Não segunda-feira. Agora.

Apaguei o cigarro, amassé o maço e joguei na lixeira. E nunca mais fumei.

O inferno das primeiras 72 horas

Parar no frio total depois de quase 30 anos fumando dois maços por dia é brutal. Não vou romantizar isso. As primeiras 72 horas foram as piores horas da minha vida.

Nas primeiras 12 horas, a vontade era constante. Não era uma vontade normal, como vontade de comer chocolate. Era uma necessidade física que gritava dentro de mim. Minhas mãos tremiam. Eu suava. Ficava andando de um lado pro outro no apartamento como um bicho preso.

No segundo dia, a irritabilidade explodiu. Eu queria brigar com todo mundo. Um vizinho fez barulho e eu quase subi lá pra reclamar aos gritos. Me tranquei no quarto. Bebi litros de água. Tomei banho gelado três vezes. Fiz flexão no chão do quarto até não aguentar mais. Qualquer coisa pra ocupar o corpo e a mente.

No terceiro dia, tive dor de cabeça forte e uma náusea que ia e vinha. Meu corpo estava processando a falta de nicotina. Li depois que a nicotina sai do corpo em 72 horas, e que aquele era o pico da abstinência física. Saber disso me ajudou. Era como saber que a febre ia baixar.

A primeira semana

Depois das 72 horas, a coisa melhorou. Não ficou boa, mas ficou suportável. A vontade ainda vinha, mas em ondas. Vinha forte por uns dois minutos e depois passava. Aprendi a surfar essas ondas. Quando a vontade batia, eu fazia alguma coisa: lavava louça, varria o apartamento, ligava pra alguém. Dois minutos. Era só aguentar dois minutos.

A insônia foi pesada na primeira semana. Dormia duas, três horas por noite. Mas meu corpo estava se recuperando. Já no quarto dia sem fumar, percebi que não tinha aquela tosse matinal. Pela primeira vez em anos, acordei sem tossir. Parece pouco, mas pra mim foi enorme.

O papel da minha família

Meu pai ficou internado durante todo o meu primeiro mês sem fumar. Ia visitá-lo toda semana. E cada vez que ia, ele perguntava: “Ainda firme?” E eu dizia: “Firme, pai.” Aquilo era meu combustível.

A Camila foi minha parceira nesse processo. Ela pesquisou tudo sobre abstinência de nicotina, me mandava mensagens de incentivo todo dia, me ligava quando achava que eu podia estar fraquejando. O Rafael, mais reservado, me deu um presente no meu aniversário de um mês sem fumar: um par de tênis de corrida. “Agora você pode voltar a correr, pai.”

Minha ex-mulher, a Denise, com quem mantenho uma boa relação, também me apoiou. Ela me disse: “Faz isso pelos meninos, Pedro. Eles precisam do pai por perto.”

A reconstrução

No segundo mês, comecei a correr. Nada demais, uns 15 minutos no Aterro do Flamengo de manhã cedo. No começo era patético, ficava ofegante em cinco minutos. Mas fui persistindo. Ao terceiro mês, já corria 30 minutos. Hoje corro 10 quilómetros três vezes por semana. Fiz a Meia Maratona do Rio em outubro de 2025 e completei em 2 horas e 14 minutos. Eu, que há um ano não subia uma escada sem parar pra respirar.

O taxí também mudou. Sem o cheiro de cigarro, os passageiros elogiam a limpeza do carro. Minha avaliação nos aplicativos subiu. Comecei a ganhar mais gorjeta. Parece besteira, mas faz diferença no fim do mês.

A comida ganhou sabor. Descobri que adoro cozinhar. Faço uma moqueca que a Camila diz que é a melhor do Rio. Talvez ela exagere, mas o paladar que eu recuperei me fez redescobrir o prazer de comer.

Meu pai

Meu pai faleceu em setembro de 2025. O câncer foi rápido e cruel. Nos últimos dias, ele mal conseguia falar. Mas numa das últimas vezes que o visitei, ele apertou minha mão e sussurrou: “Orgulho.” Aquela palavra ficou gravada em mim.

Eu parei de fumar por causa dele. E cada dia que fico sem fumar é uma homenagem a ele. Ele não conseguiu parar a tempo. Eu consegui.

O que sei hoje

Faz quase um ano que parei. Dez meses e duas semanas, pra ser exato. E posso dizer algumas coisas que aprendi:

Parar no frio total não é pra todo mundo. Se você precisa de adesivo, remédio, acompanhamento, use. Não existe vergonha em buscar ajuda. Eu parei assim porque foi o que funcionou pra mim, mas cada um tem seu caminho.

A vontade de fumar ainda aparece. Não vou mentir. Vez ou outra, num churrasco, quando alguém acende um cigarro por perto, vem aquele fantasma. Mas hoje eu sei que a vontade dura dois minutos e passa. Dois minutos. É só aguentar.

O mais difícil não é parar. É decidir parar de verdade. Todas as vezes que eu “tentei” antes, eu não tinha decidido de verdade. Eu estava experimentando. No dia em que vi meu pai naquela cama de hospital, eu decidi. E decisão de verdade é diferente de tentativa.

Meu nome é Pedro Costa. Fumei por 29 anos. E hoje respiro livre. Cada manhã que acordo sem tossir, cada quilômetro que corro, cada abraço nos meus filhos sem cheiro de cigarro, é uma vitória. E essa vitória, ninguém tira de mim.