Hipnose Me Ajudou a Parar de Fumar Após 26 Anos: A História de Patrícia Lopes
Meu nome é Patrícia Lopes, tenho 49 anos, moro em São Paulo e faz um ano e cinco meses que parei de fumar com a ajuda da hipnose clínica. Vinte e seis anos fumando, mais de uma dezena de tentativas frustradas, e foi a hipnose que conseguiu fazer o que nada mais tinha feito. Eu sei que muita gente ouve “hipnose” e pensa em show de mágica, gente clucando como galinha no palco. Eu pensava a mesma coisa. Mas hipnose clínica é uma coisa completamente diferente, e ela mudou minha vida.
Comecei a fumar em 1997, quando tinha 20 anos. Eu estudava Administração de Empresas na PUC de São Paulo, campus Monte Alegre, em Perdizes. Era uma época em que fumar ainda era relativamente aceito, e a universidade era um terreno fértil pro vício. Nas festas da atlética, nos bares da Rua Cardoso de Almeida, nas madrugadas de estudo. Minha amiga Carol, que era da minha turma, fumava Dunhill desde os 17 anos. Eu achava elegante. Comecei fumando com ela, primeiro nas festas, depois nos intervalos, depois todo dia. Em seis meses já tinha meu próprio maço de Dunhill na bolsa.
Ao longo dos anos, mudei de marca algumas vezes. Do Dunhill passei pro Marlboro, depois pro Parliament quando queria me sentir sofisticada, e terminei fumando Free, que era mais barato quando o dinheiro apertava. No fundo, cigarro é cigarro. A marca é só a embalagem da dependência.
São Paulo é uma cidade que te engole, e o cigarro era minha boia nesse oceano de concreto. Trabalhei vinte anos como gerente administrativa em empresas de médio porte. Reuniões longas, metas impossíveis, trânsito de duas horas pra ir e duas pra voltar. Eu fumava no carro, presa no congestionamento da Marginal Tietê, com o vidro meio aberto, aquela fumaça se misturando com a poluição de São Paulo. No auge, eu fumava uns 25 cigarros por dia. Um maço e cinco, religiosamente.
Meus gatilhos eram uma constelação: o café da manhã na padaria do bairro na Vila Mariana, o trânsito, o intervalo do trabalho, a ansiedade antes de reuniões, o vinho tinto depois do jantar, as conversas longas com minhas amigas, a insônia das madrugadas. E tinha um gatilho que eu só entendi muitos anos depois: a solidão emocional. Eu me casei aos 28 com o Marcelo, tive dois filhos, o Gustavo e a Marina, construí uma família que por fora parecia perfeita. Mas por dentro, eu me sentia sozinha no meu casamento. O Marcelo não me maltratava, mas também não me via. E eu fumava pra preencher esse vazio que ele não preenchia.
As tentativas de parar foram muitas. Perdi a conta exata, mas foram pelo menos oito. Adesivos de nicotina em 2005, durei três semanas. Goma Nicorette em 2008, duas semanas. Frio total em 2010, cinco dias. Champix em 2013, quatro semanas, mas voltei a fumar quando passei por um estresse grande no trabalho. Acupuntura em 2016, não senti efeito nenhum. Vape em 2018, acabei usando os dois. Zyban em 2020, tive insônia severa e parei o tratamento. Frio total de novo em 2022, durei dez dias. Cada tentativa era mais desmoralizante que a anterior. Eu comecei a acreditar genuinamente que era uma pessoa incapaz de parar de fumar. Que esse seria meu destino até o fim.
Em 2024, aconteceram duas coisas que mudaram tudo. A primeira: eu me separei do Marcelo. Depois de 21 anos de casamento, a gente decidiu que era melhor seguir caminhos separados. Foi difícil, mas foi honesto. E pela primeira vez em muito tempo, eu me senti dona de mim mesma. A segunda: na minha consulta anual com a ginecologista, a Dra. Renata, ela me disse que eu precisava parar de fumar urgentemente. Minha pressão estava alta, meu colesterol também, e o tabagismo combinado com a menopausa era uma bomba-relógio cardiovascular. “Patrícia, você tem 48 anos. Se não parar agora, as consequências podem ser irreversíveis.”
Saí do consultório assustada, mas determinada. E foi aí que minha amiga Sandra me sugeriu a hipnose clínica. A Sandra tinha parado de fumar com hipnose dois anos antes, depois de fumar por 18 anos. Ela me indicou o profissional dela, o Dr. Fernando Alcântara, hipnoterapeuta clínico com consultório na Rua Oscar Freire, nos Jardins.
Eu estava cética. Muito cética. Liguei pro consultório com um pé atrás enorme. A secretária me explicou que a hipnose clínica não é entretenimento. É uma técnica terapêutica reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia. Não envolve perda de consciência ou controle. É um estado de foco profundo onde o terapeuta consegue acessar padrões de comportamento no subconsciente e ajudar a reprogramá-los. Marquei a primeira sessão mais por desespero do que por convicção.
A primeira sessão foi surpreendente. O Dr. Fernando me recebeu num consultório calmo, com iluminação suave e uma poltrona confortável. Passamos a primeira meia hora conversando. Ele queria entender minha história com o cigarro: quando comecei, por que comecei, quais eram meus gatilhos, o que o cigarro significava pra mim emocionalmente. Eu falei sobre tudo. Sobre a solidão, sobre o casamento, sobre a sensação de vazio. Ele ouviu com uma atenção que eu raramente recebia.
Depois começou a indução hipnótica. Ele me pediu pra fechar os olhos, relaxar os músculos progressivamente, dos pés até a cabeça, e focar na respiração. A voz dele era calma e ritmada. Eu fui relaxando aos poucos, sem perder a consciência em momento algum. Eu ouvia tudo, sabia onde estava, podia abrir os olhos se quisesse. Mas não queria. Estava num estado de relaxamento profundo que eu não experimentava há anos.
Nesse estado, o Dr. Fernando começou a trabalhar com sugestões. Não eram comandos. Eram imagens, metáforas, associações. Ele me pediu pra imaginar meus pulmões se enchendo de ar limpo, pra sentir o peso do cigarro sendo retirado dos meus ombros, pra visualizar uma versão de mim mesma livre, saudável, respirando fácil. Ele associou o cigarro a sensações negativas: o gosto ruim na boca de manhã, a tosse, o cheiro na roupa, a vergonha. E associou a liberdade do cigarro a sensações positivas: o ar puro, a energia, o orgulho.
A sessão durou uma hora e quinze minutos. Quando abri os olhos, me senti estranhamente calma. Não transformada, não curada magicamente, mas calma. Uma calma que eu não sentia há muito tempo.
Fiz cinco sessões ao longo de seis semanas. Cada sessão trabalhava aspectos diferentes do meu vício. A segunda focou nos gatilhos específicos. A terceira trabalhou a questão emocional, a solidão e o vazio. A quarta reforçou as associações positivas com a vida sem cigarro. A quinta foi de consolidação.
A data que marquei para parar foi entre a segunda e a terceira sessão: 15 de outubro de 2024. Naquela manhã, fumei meu último cigarro no quintal da casa que eu tinha alugado depois da separação, no bairro do Ipiranga. Apaguei o cigarro, joguei o maço no lixo e senti algo que nunca tinha sentido nas tentativas anteriores: tranquilidade. Não pânico, não medo, não desespero. Tranquilidade.
Isso não quer dizer que foi fácil. Nos primeiros dias, a vontade aparecia. Mas era diferente. Nas tentativas anteriores, a vontade era um grito, uma urgência incontrolável que tomava meu corpo inteiro. Depois da hipnose, a vontade era mais como um sussurro distante. Eu ouvia, reconhecia, e deixava passar. O Dr. Fernando me ensinou uma técnica pra esses momentos: quando a vontade viesse, eu deveria fechar os olhos por 30 segundos, respirar fundo três vezes, e repetir mentalmente: “Eu sou livre. Eu escolho não fumar.” Parece simples. E era. Mas funcionava.
Os primeiros dez dias foram os mais desafiadores. Eu sentia inquietação, dificuldade pra dormir, um pouco de irritabilidade. Mas nada comparável às crises que tive nas tentativas anteriores. Era como se a hipnose tivesse instalado um amortecedor entre a vontade e a ação. A vontade existia, mas não tinha força pra me mover.
Meus filhos foram um apoio enorme. O Gustavo, de 20 anos, começou a cozinhar pra mim nos fins de semana que passava em casa. Fazia pratos elaborados, com ingredientes frescos, e dizia: “Mãe, experimenta. Agora que você parou de fumar, vai sentir o sabor de verdade.” E era verdade. Meu paladar renasceu de uma forma que eu não imaginava possível. Uma simples manga Palmer do mercadinho era uma explosão de sabor. A Marina, de 17, me abraçava quando chegava da escola e dizia: “Mãe, você não cheira mais a cigarro. Que bom.” Essas pequenas coisas me mantinham firme.
A Sandra, minha amiga que me indicou a hipnose, foi minha companheira de jornada. A gente se falava todo dia por WhatsApp. Ela me mandava mensagens de incentivo, compartilhava os benefícios que ela tinha sentido, me lembrava dos motivos pelos quais eu tinha decidido parar. Ter alguém que já passou pelo mesmo processo e está do outro lado é algo poderoso.
Depois de seis meses sem fumar, fui ao cardiologista. Minha pressão tinha normalizado. Meu colesterol estava melhor. O médico me disse que meu risco cardiovascular tinha diminuído significativamente. A Dra. Renata, minha ginecologista, ficou emocionada quando contei. “Patrícia, você fez a melhor coisa que podia fazer pela sua saúde.”
Financeiramente, eu gastava cerca de 550 reais por mês com cigarro. Em quase um ano e meio, economizei mais de 9 mil reais. Com esse dinheiro, fiz algo que sonhava há anos: uma viagem sozinha pra Bahia. Passei dez dias em Itacaré, caminhando por trilhas na Mata Atlântica, nadando em praias desertas, respirando aquele ar puro do litoral baiano. Sozinha, mas não solitária. Pela primeira vez, a solidão não era um vazio a preencher com cigarro. Era um espaço de paz e autoconhecimento.
A hipnose não é pra todo mundo. Exige mente aberta, disposição pra se vulnerabilizar e um profissional qualificado. Não funciona se você não quer que funcione. Mas se você está aberta, se já tentou outros métodos e nenhum funcionou, considere. Eu tentei tudo antes da hipnose: adesivos, goma, Champix, Zyban, acupuntura, vape, frio total. Nada funcionou. A hipnose funcionou porque tratou o que os outros não trataram: a raiz emocional do meu vício.
Hoje eu tenho 49 anos e estou na melhor fase da minha vida. Separada, sim. Mas livre. Livre do casamento que me sufocava e livre do cigarro que me envenenava. Corro três vezes por semana no Parque do Ibirapuera, faço ioga às terças e quintas, e durmo a noite inteira sem tossir. Minha pele está renovada, minha energia é outra, minha autoestima voltou de um lugar onde eu achava que não existia mais.
Vinte e seis anos de cigarro. Cinco sessões de hipnose. Uma vida inteira pela frente. Essa é a minha vitória.