8 Anos de Cigarro Social Que Viraram Vício Real e Como a Goma de Nicotina Me Salvou
8 Anos de Cigarro Social Que Viraram Vício Real e Como a Goma de Nicotina Me Salvou
Meu nome é Mariana Campos, tenho 30 anos e moro em São Paulo. Fumei por oito anos e parei com goma de nicotina. Minha história é sobre aquele tipo de fumante que ninguém leva a sério: a fumante “social” que jura que pode parar quando quiser, até descobrir que não pode.
Tudo começou aos 22 anos, no último ano da faculdade de jornalismo na Cásper Líbero. Era 2018 e eu estava vivendo aquele momento intenso de TCC, estágio, vida social a mil. Meu grupo de amigos se encontrava toda quinta-feira no Beco do Batman, na Vila Madalena, e toda sexta num bar na Augusta. Em todos esses encontros, alguém fumava. E num desses encontros, numa quinta-feira quente de outubro, eu aceitei um cigarro do meu amigo Gabriel. Era um Camel azul. O sabor era forte e eu tossi, mas tinha algo no gesto, no ritual, na pausa que o cigarro criava no meio da conversa, que me atraiu.
Durante os primeiros dois anos, eu era genuinamente uma fumante social. Fumava nos bares, nas festas, nos encontros. Nunca comprava meu próprio maço. Sempre pedia dos outros. Justificava dizendo: “Eu não fumo, só fumo quando bebo.” Essa frase é a maior mentira que milhões de pessoas contam a si mesmas e eu era uma delas.
A transição de social para diária aconteceu tão suavemente que eu quase não percebi. Em 2020, durante a pandemia, comecei a fumar em casa. Primeiro porque estava bebendo vinho sozinha no apartamento e a associação vinho-cigarro já estava estabelecida. Depois porque o estresse do trabalho remoto era real e o cigarro era a minha pausa de cinco minutos. Depois porque acordava de manhã e a primeira coisa que queria era fumar.
Quando me dei conta, já estava fumando um maço por dia de Lucky Strike azul. Todo dia, sem exceção. Na pandemia, sem sair, sem bares, sem vida social, eu fumava um maço por dia na varanda de um apartamento de 45 metros quadrados no Itaim Bibi. O cigarro não era mais social. Era meu companheiro de isolamento.
Trabalhava como redatora de conteúdo para uma agência digital. O trabalho era todo online, o que significava que eu podia fumar durante o expediente. Acendia um cigarro durante chamadas de vídeo com a câmera desligada. Fumava enquanto escrevia textos sobre saúde, sobre bem-estar, sobre qualidade de vida. A ironia era tão grande que doía. Uma vez escrevi um artigo sobre os benefícios de parar de fumar para um cliente da área farmacêutica enquanto fumava. Lembro da vergonha que senti ao salvar aquele arquivo.
Em 2023, quando a vida voltou ao normal e eu voltei a circular por São Paulo, os sinais físicos começaram a aparecer com clareza. Minha voz, que é minha ferramenta de trabalho como jornalista, ficou rouca com frequência. Minha pele estava opaca. Meus dentes, que eram brancos, amarelaram. Minha resistência para qualquer atividade física era zero. Uma caminhada de vinte minutos do metrô até o escritório me deixava ofegante.
Mas o que mais me afetava era o cheiro. Eu morria de vergonha do cheiro. Gastava uma fortuna em perfume, sempre carregava spray bucal, lavava as mãos compulsivamente. Numa entrevista para uma vaga melhor numa revista, a entrevistadora perguntou se eu fumava. Eu neguei. Ela acenou com a cabeça de uma forma que me disse que ela sabia que eu estava mentindo. Não consegui a vaga.
A decisão de parar veio em maio de 2025. Não foi um momento dramático como nas histórias de cinema. Foi um cálculo. Eu estava fazendo meu orçamento mensal numa planilha e somei quanto gastava com cigarro. Eram quase R$ 600,00 por mês. Setecentos e vinte maços por ano. Quase R$ 7.200,00 por ano. Em oito anos, eu tinha gasto algo em torno de R$ 45.000,00 em cigarros. Quarenta e cinco mil reais. Com esse dinheiro eu poderia ter dado entrada num apartamento. Poderia ter viajado para a Europa. Poderia ter feito uma pós-graduação.
Mas não foi só o dinheiro. Na mesma semana, minha melhor amiga, a Carolina, que nunca fumou, me disse com toda a delicadeza do mundo: “Mari, eu te amo, mas eu não aguento mais o cheiro de cigarro no seu cabelo quando a gente se abraça.” Ela disse isso com carinho, mas a mensagem foi clara. O cigarro estava afetando minhas relações.
Pesquisei sobre métodos para parar e me identifiquei com a goma de nicotina. Não queria remédio porque tinha medo de efeitos colaterais. Não queria adesivo porque minha pele é sensível e me preocupava com irritação. A goma parecia prática, discreta e me dava controle sobre o uso. Comprei Nicorette 2mg sabor hortelã na farmácia. A dosagem de 2mg era indicada para meu perfil: fumantes de até um maço por dia que não acendem o primeiro cigarro nos primeiros 30 minutos após acordar.
Marquei 1 de junho de 2025 como meu dia de parar. No dia anterior, fumaça do meu último cigarro subiu da varanda do apartamento e eu fiquei olhando até ela desaparecer. De manhã, em vez de acender um Lucky Strike, abri o blister da Nicorette e coloquei uma goma na boca. O gosto era de hortelã com um fundo apimentado. Diferente, mas aceitável.
A técnica de mastigar a goma precisa de aprendizado. Não é como chiclete normal. Morde devagar, sente o formigamento, estaciona entre a bochecha e a gengiva, espera, morde de novo. No começo eu mastigava rápido demais e ficava com soluço e irritação na garganta. Depois de uns dias, peguei o ritmo.
Os primeiros dias foram marcados por uma inquietação constante. Meu corpo sabia que estava recebendo nicotina pela goma, mas sentia falta do ritual. Do gesto de acender, de tragar, de soltar a fumaça. A goma satisfazia a química, mas não o comportamento. Para compensar, comecei a ocupar as mãos de outras formas. Comprei um cubo mágico e ficava resolvendo enquanto trabalhava. Parece bobo, mas o movimento repetitivo das mãos substituiu o gesto do cigarro de forma surpreendente.
Na primeira semana sem fumar, perdi duas noites de sono. Acordava às três da manhã com o coração disparado e uma ansiedade difusa. Levantava, mastigava uma goma, fazia um chá e assistia a alguma coisa leve na Netflix até o sono voltar. Foram noites longas, mas eu repetia para mim mesma: “Isso é temporário. O cigarro seria permanente.”
O momento de maior tentação veio no segundo final de semana. Fui a um aniversário num rooftop na Vila Olímpia. Open bar, música, e pelo menos metade dos convidados fumando. O cheiro do cigarro no ar noturno de São Paulo era quase hipnótico. Meu corpo inteiro queria um. Fui ao banheiro, masguei uma goma Nicorette com urgência, olhei para mim mesma no espelho e disse em voz alta: “Você não é mais essa pessoa.” Lavei o rosto, voltei para a festa e dancei até duas da manhã sem fumar.
A Carolina esteve comigo nessa festa. Quando percebeu que eu estava lutando, veio do meu lado e ficou comigo o resto da noite. Não disse nada sobre cigarro. Só ficou ali, presente, conversando sobre outras coisas, me distraindo. Esse tipo de apoio silencioso vale ouro.
Ao longo das semanas, fui reduzindo o uso da goma. Na primeira semana, usava 8 a 10 por dia. Na quarta semana, 5 a 6. No segundo mês, 3 a 4. No terceiro mês, 1 a 2. Em setembro, já eram dias inteiros sem goma. No final de setembro, parei completamente.
A recuperação física foi rápida, provavelmente porque eu era jovem e não tinha fumado por tanto tempo quanto fumantes mais antigos. Em duas semanas, minha voz voltou ao normal. Em um mês, minha pele clareou visivelmente. Em dois meses, meus dentes começaram a desmanchar sem ajuda profissional. Em três meses, eu conseguia correr 3 quilômetros no Parque do Ibirapuera sem parar.
Agora são dez meses sem fumar. Completei 30 anos em janeiro como não fumante, e esse foi o melhor presente de aniversário que eu poderia ter me dado. Corro 5 quilômetros três vezes por semana. Meu olfato é tão aguçado que sinto o cheiro de cigarro a metros de distância e me pergunto como as pessoas ao meu redor aguentaram aquilo por oito anos.
O dinheiro economizado já passa de R$ 6.000,00. Usei parte dele para fazer uma viagem a Buenos Aires com a Carolina em fevereiro. Quando estávamos sentadas num café em San Telmo, ela me abraçou e disse: “Seu cabelo cheira a shampoo. Só shampoo.” Eu sorri tanto que meu rosto doeu.
Para quem se identifica com a minha história, para as fumantes “sociais” que acham que controlam o cigarro: vocês não controlam. O cigarro controla vocês. Eu sei porque vivi isso. A transição de social para dependente acontece em câmera lenta e, quando você percebe, já está fumando um maço por dia sozinha na varanda. Não espere chegar lá. E se já chegou, saiba que a volta é possível.
A goma de nicotina Nicorette me deu a ponte que eu precisava entre fumar e não fumar. Não foi mágica. Foi trabalho. Foi disciplina. Foi mastigar uma goma quando tudo que meu corpo queria era um cigarro. Mas cada goma era um passo a menos de distância da liberdade. E quando a última goma ficou para trás, eu já era uma pessoa diferente.
Meu nome é Mariana Campos. Tenho 30 anos, sou jornalista, sou paulistana e finalmente meu cabelo cheira só a shampoo. E isso, por mais simples que pareça, é a minha maior vitória.