A Minha Vitória Contra o Tabaco: 16 Anos a Fumar e Finalmente Livre com Champix
Chamo-me Maria Santos, tenho 39 anos e vivo em Lisboa. Durante 16 anos, o tabaco foi a minha sombra. Acompanhava-me ao pequeno-almoço, ao trabalho, aos jantares com amigos, aos momentos de solidão. Estava sempre ali, como se fosse uma extensão de mim. Mas há um ano e meio que me separei dessa sombra, e posso dizer com toda a honestidade: nunca me senti tão eu mesma.
Esta é a minha história. Conto-a porque sei que há muitas mulheres e muitos homens em Portugal que estão onde eu estive. Que acham que não conseguem. Que já tentaram e falharam. Eu também pensei isso. E estava errada.
O início de um vício que parecia inofensivo
Comecei a fumar aos 23 anos, em 2010. Estava a acabar a licenciatura em Comunicação Social na Universidade Nova de Lisboa. O stress dos exames, as noites a estudar na biblioteca, e o grupo de colegas que fumava nos intervalos no pátio. Era tudo tão normal. Alguém me ofereceu um Camel e eu aceitei. Nas primeiras semanas era só nos intervalos. Depois era um maço por semana. Ao fim de seis meses, já comprava um maço por dia.
Fumava SG Ventil ao princípio, depois passei para os Marlboro Gold. Nos últimos anos eram cerca de 20 cigarros por dia. Gastava qualquer coisa como 170 euros por mês. Dinheiro que poderia ir para tantas outras coisas. Viagens, livros, jantares. Em vez disso, ia todo para fumo.
A vida de fumadora em Lisboa
Quem fuma em Lisboa conhece os rituais. O cigarro com o café na esplanada do bairro. O cigarro à porta do escritório, ali no Marquês de Pombal, onde eu trabalhava numa agência de comunicação. O cigarro a caminhar pela Baixa ao final do dia. O cigarro na varanda de casa, no Bairro de Alvalade, enquanto olhava os telhados da cidade ao pôr do sol. Havia qualquer coisa de romantizado nisso tudo. Mas a realidade era outra.
A realidade era acordar com a garganta seca e uma tosse que não passava. Era ficar sem fôlego a subir a Rua Augusta. Era ter de sair de um jantar de família para ir fumar à porta do restaurante, ao frio de janeiro, sozinha. Era o cheiro nas mãos que nenhum creme resolvia. Era o meu namorado, o Tiago, a dizer-me com preocupação: “Maria, não quero que te aconteça alguma coisa.”
As tentativas falhadas
Tentei deixar de fumar três vezes antes de conseguir.
A primeira foi em 2018, quando fiz 31 anos. Promessa de Ano Novo. Durou exatamente 12 dias. A abstinência transformou-me numa pessoa que eu não reconhecia. Irritável, ansiosa, incapaz de me concentrar. Voltei a fumar numa noite de saída com amigas, em Alcântara. Uma delas acendeu um cigarro e eu pedi: “Dá-me só uma passa.” Às duas da manhã já tinha comprado o meu próprio maço.
A segunda vez foi em 2020, durante o confinamento. Pensei que estar em casa seria mais fácil. Foi o contrário. O tédio e a ansiedade da pandemia multiplicaram a vontade. Durei cinco dias.
A terceira tentativa, em 2022, foi com pastilhas de nicotina. Ajudaram durante duas semanas, mas depois o efeito já não era o mesmo e a vontade de fumar falou mais alto. Senti-me uma falhada. Achei que nunca ia conseguir.
A consulta que mudou tudo
Em setembro de 2024, fui a uma consulta de cessação tabágica no Centro de Saúde de Alvalade. Fui quase por obrigação. A minha mãe tinha sido diagnosticada com enfisema pulmonar, ela que fumou durante 30 anos. Ver a minha mãe com dificuldade em respirar foi um murro no estômago. Não queria o mesmo destino.
A médica, Dra. Fernanda Lopes, fez-me o teste de Fagerström e o meu nível de dependência era alto. Ela olhou para mim e disse: “Maria, com o seu grau de dependência, eu recomendo a vareniclina. Em Portugal, conhecemos pelo nome comercial Champix. É o tratamento com a taxa de sucesso mais elevada para casos como o seu.”
Explicou-me tudo: como o Champix actua nos receptores de nicotina no cérebro, como reduz o prazer de fumar e diminui os sintomas de abstinência. O tratamento dura 12 semanas. Começa-se a tomar o comprimido uma semana antes da data de paragem, e durante essa semana ainda se pode fumar.
O início do Champix
Comecei o Champix no dia 1 de outubro de 2024. A primeira semana, em que ainda fumava, foi estranha. Notei que os cigarros iam perdendo o sabor. Ao terceiro dia, acendi um e achei-o quase desagradável. Ao quinto dia, fumava metade e apagava. Era como se o Champix estivesse a desligar, lentamente, o interruptor do prazer associado ao tabaco.
O dia D foi 8 de outubro. Fumei o último cigarro de manhã, na varanda, e disse para mim mesma: “É agora.” Não foi dramático. Não houve lágrimas nem cerimónias. Simplesmente apaguei o cigarro, deitei o maço ao lixo, e segui com o meu dia.
As primeiras semanas sem fumar
A primeira semana foi desafiante, mas surpreendentemente suportável. A diferença em relação às tentativas anteriores era abismal. Tinha vontade de fumar, claro, mas era uma vontade controlável. Como ter fome e saber que a refeição está a caminho. O Champix não eliminava completamente a vontade, mas transformava-a de algo urgente em algo manejável.
Os efeitos secundários existiram. Tive náuseas nos primeiros dias, especialmente se tomava o comprimido de estômago vazio. A Dra. Fernanda avisou-me para tomar sempre com comida, e isso resolveu quase por completo. Tive sonhos estranhos durante duas semanas. Nada assustador, apenas bizarro. Sonhava com coisas absurdas: uma vez sonhei que estava a dar uma entrevista a um polvo que falava português. Acordava a rir.
Os gatilhos e como os enfrentei
O café foi o maior gatilho. Em Portugal, o café e o cigarro são quase casados. Aquele bica no balcão do café da esquina, com o cigarro na outra mão. Era automático. Nos primeiros tempos, troquei o café preto pelo chá verde. Depois, quando me senti mais forte, voltei ao café, mas sem o cigarro. Hoje tomo o meu bica tranquilamente e nem me lembro do cigarro.
As saídas à noite foram outro desafio. O Bairro Alto ao sábado à noite, com toda a gente a fumar nas ruelas. O cheiro, a presença constante do tabaco. Nas primeiras semanas, evitei sair à noite. Depois, comecei a ir, mas com uma estratégia: levava sempre pastilhas elásticas e, quando a vontade apertava, mastigava uma e concentrava-me na conversa.
O stress no trabalho também era um gatilho. Na agência, os prazos são apertados e a pressão é constante. Antes, a minha válvula de escape era ir fumar à porta do prédio. Substituí esse ritual por uma caminhada de cinco minutos à volta do quarteirão. Sem cigarro, apenas ar fresco. Funcionou melhor do que eu esperava.
O apoio que fez a diferença
O Tiago foi extraordinário. Nunca fumou, mas nunca me julgou por fumar. Quando decidi parar, ele informou-se sobre o Champix, sobre os efeitos secundários, sobre o que esperar. Quando eu ficava irritável, ele não levava a peito. Quando eu tinha uma noite difícil, ele preparava-me um chá e sentava-se ao meu lado.
A minha amiga Sofia, que tinha deixado de fumar dois anos antes com adesivos de nicotina, foi outra aliada fundamental. Mandávamos mensagens todos os dias. Ela sabia exactamente o que eu estava a sentir porque tinha passado pelo mesmo. Nos momentos mais difíceis, ligava-lhe e ela dizia: “Aguenta, que passa. E quando passar, vais sentir-te invencível.”
A consulta de seguimento com a Dra. Fernanda, a cada quatro semanas, dava-me estrutura. Saber que ia ter de reportar o meu progresso motivava-me. Ela monitorizava os efeitos secundários e ajustava as expectativas. Era um apoio clínico, mas também humano.
A transformação
As mudanças começaram a ser evidentes ao fim de um mês. O olfacto voltou com uma intensidade que me surpreendeu. Passei pela Pastelaria Versailles na Avenida da República e o cheiro dos pastéis de nata quase me fez chorar. O paladar mudou. A comida tinha mais sabor. Comecei a cozinhar mais em casa, a experimentar receitas novas.
A respiração melhorou drasticamente. Comecei a correr no Parque das Nações, algo que antes era impensável. No primeiro dia corri 10 minutos e quase morri. Ao fim de dois meses, já corria 30 minutos sem parar. Há pouco tempo completei os meus primeiros 5 quilómetros numa corrida organizada na Expo. Chorei ao cruzar a meta. Não por cansaço, por orgulho.
A pele mudou. As olheiras diminuíram, a tez ficou mais luminosa. Uma colega de trabalho perguntou-me se tinha mudado de creme de rosto. Não tinha. Tinha apenas deixado de envenenar-me.
O Champix: a minha avaliação honesta
Completei as 12 semanas de tratamento em dezembro de 2024. O Champix não é uma varinha mágica. Não elimina a vontade por completo nem faz o trabalho por nós. Mas dá-nos uma vantagem enorme. Reduz a intensidade da abstinência e torna os cigarros menos apetecíveis. Para mim, foi a diferença entre uma luta impossível e uma luta difícil mas vencível.
Os efeitos secundários foram reais mas geríveis. As náuseas passaram ao fim de duas semanas. Os sonhos estranhos ao fim de três. Não tive alterações de humor graves nem pensamentos negativos, que são efeitos descritos no folheto. Cada pessoa reage de forma diferente, e é fundamental fazer o tratamento com acompanhamento médico.
A vida que conquistei
Hoje, passaram mais de 17 meses desde o meu último cigarro. Poupei mais de 2.800 euros. Inscrevi-me numa meia maratona para outubro deste ano. A minha mãe, que ainda luta com o enfisema, diz que a minha história lhe dá esperança.
A melhor parte é a liberdade. Já não preciso de planear a minha vida à volta do cigarro. Já não saio a meio de um filme para ir fumar. Já não acordo às três da manhã com vontade de fumar. Já não tenho de carregar um maço e um isqueiro para todo o lado.
Sou livre.
Se está a ler isto e está a pensar em deixar de fumar, quero que saiba de uma coisa: é possível. Não é fácil, mas é possível. Fale com o seu médico. Informe-se sobre as opções disponíveis. Não tenha vergonha de pedir ajuda. E não desista se falhar. Eu falhei três vezes. À quarta, consegui.
O meu nome é Maria Santos. Fumei durante 16 anos. E hoje, a única coisa que sai da minha boca é a minha história, para que ela possa ajudar alguém.