20 Anos de Cigarro e Parei de Uma Vez: A Jornada de Marcos Ribeiro em Brasília
Meu nome é Marcos Ribeiro, tenho 43 anos, moro em Brasília e faz um ano e onze meses que eu parei de fumar de uma vez. Frio total. Vinte anos de cigarro cortados numa só decisão. Não vou romantizar: os primeiros meses foram uma guerra contra mim mesmo. Mas eu venci. E a sensação de vitória que eu carrego todo dia quando acordo e respiro fundo, sem tossir, sem sentir aquele aperto no peito, não tem preço no mundo.
Nasci em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, em 1983. Meu pai era servidor público, trabalhava no Ministério da Saúde, e minha mãe era costureira. Família de classe média, casa própria, vida estável. Comecei a fumar com 23 anos, em 2006, quando estava terminando a faculdade de Direito no UniCeub, no Plano Piloto. Na época eu trabalhava como estagiário num escritório de advocacia na Asa Sul e estudava à noite. A rotina era pesada: oito horas no escritório, quatro horas de aula, mais estudo em casa. O cigarro entrou como um “relaxante” nessa rotina exaustiva.
Meu primeiro cigarro foi num bar do Setor Comercial Sul, depois da aula, com colegas da faculdade. Era um Marlboro Red que o Eduardo, meu amigo de turma, me ofereceu. A gente tomava cerveja Skol num boteco simples, daqueles de mesa de plástico na calçada, e o Eduardo disse: “Experimenta, cara. Ajuda a relaxar.” Experimentei. E por vinte anos não parei.
Brasília é uma cidade peculiar pra fumante. Aquele clima seco, com umidade do ar chegando a 12% em agosto, resseca tudo. Fumar nesse ambiente era duplamente destrutivo. Minha garganta vivia em carne viva. Meus lábios rachavam. Meus olhos ardiam com a combinação de fumaça e ar seco. Mas eu continuava. Fumava na esplanada, olhando pro Congresso Nacional. Fumava no estacionamento dos blocos da Asa Norte. Fumava no carro, parado no Eixão, com o ar-condicionado ligado e o cinzeiro cheio.
No meu auge, fumava um maço e meio por dia de Marlboro Gold. Uns 30 cigarros. Eu calculava: eram quase 700 reais por mês. Mas o vício tem essa habilidade mágica de te fazer ignorar números. Você sabe que é caro, sabe que é absurdo, e continua comprando.
Meus gatilhos eram muitos e variados. O café na padaria da quadra 205 da Asa Norte, onde eu morava. O estresse do trabalho (depois de me formar, abri um escritório de advocacia com um sócio e a pressão era constante). As audiências no Fórum, onde eu ficava nervoso e fumava três cigarros seguidos antes de entrar. Os churrascos de domingo no lago Paranoá com os amigos. O trânsito quando ia visitar meus pais em Taguatinga. A insônia que me acompanhou por anos. E algo que eu demorei a reconhecer: a pressão de ser bem-sucedido em Brasília, uma cidade onde todo mundo parece estar competindo com todo mundo.
Casei com a Daniela em 2015. Ela nunca fumou. Odiava o cigarro com todas as forças. No começo do casamento, ela tolerava. Depois começou a reclamar. Depois começou a implorar. “Marcos, por favor. Pensa em nós. Pensa no nosso futuro.” Eu prometia, tentava, falhava. O ciclo se repetia.
Tentei parar três vezes. A primeira, em 2016, logo depois do casamento, por pressão da Daniela. Frio total. Durei uma semana. A segunda, em 2019, com adesivos NiQuitin. Três semanas. A terceira, em 2021, com Champix. Fui o mais longe que já tinha ido: seis semanas sem fumar. Mas então meu sócio saiu do escritório de repente, me deixando com todas as dívidas e clientes, e eu voltei a fumar no mesmo dia. O estresse me derrubou. E a culpa depois foi avassaladora.
Depois da terceira falha, eu desisti de desistir. Aceitei que era fumante e que ia morrer fumante. A Daniela parou de falar no assunto. Um silêncio pesado tomou conta dessa parte do nosso casamento. Ela não tocava mais no tema, mas eu via nos olhos dela a decepção. E isso doía mais do que qualquer cobrança verbal.
O ponto de virada veio em abril de 2024. A Daniela engravidou. Depois de anos tentando, finalmente. Quando ela me mostrou o teste positivo, eu chorei de felicidade. E no meio das lágrimas, ela segurou minha mão e disse, com a voz tremendo: “Marcos, eu não quero criar essa criança sozinha. Eu preciso de você vivo. Por favor.”
Naquela noite, deitado na cama, com a Daniela dormindo ao meu lado, eu olhei pro teto e fiz um acordo comigo mesmo. Não com ela, não com o bebê, comigo. Eu ia parar de fumar. Não por culpa. Não por obrigação. Porque eu queria ser o pai que essa criança merecia. Porque eu queria estar presente, saudável, inteiro.
Marquei a data: 1 de maio de 2024, Dia do Trabalho. Escolhi um feriado pra ter o primeiro dia sem a pressão do escritório. Na véspera, fumei meu último cigarro na varanda do apartamento, no bloco da Asa Norte, olhando pro cerrado ao longe. O céu de Brasília ao pôr do sol é uma coisa de outro mundo, aquele laranja imenso que se espalha por tudo. Apaguei o cigarro, quebrei o maço e disse em voz alta: “Acabou.”
Não comprei nada. Não marquei médico. Não baixei app. Decidi que dessa vez seria eu contra o vício, sem intermediários. Sei que isso não é o recomendável e que cada pessoa deveria consultar um profissional de saúde. No meu caso, eu já tinha tentado com ajuda e não tinha funcionado. Precisava provar pra mim mesmo que tinha força suficiente.
O primeiro dia foi suportável. Acordei, tomei café sem cigarro (estranho, mas suportável), e fui caminhar no Parque da Cidade. Caminhei duas horas. Voltei cansado, mas sem ter fumado. O segundo dia foi pior. A ansiedade chegou como uma onda. Minhas mãos tremiam. Minha cabeça doía. Eu abria a geladeira, fechava, abria de novo, sem fome, só querendo ocupar as mãos. O terceiro dia foi o inferno na terra. Tive uma crise de irritabilidade tão forte que gritei com a Daniela por causa de um copo deixado na pia. Me arrependi imediatamente, pedi desculpa, e fui pro banheiro chorar de vergonha.
O que me manteve firme nos primeiros dias foi uma estratégia simples: eu dividia o dia em blocos de uma hora. Não pensava em “nunca mais fumar.” Pensava em “não fumar nas próximas 60 minutos.” E quando esses 60 minutos passavam, eu comemorava mentalmente e começava outros 60. Bloco por bloco, hora por hora. Era mais gerenciável assim. Porque “nunca mais” é assustador. Mas “mais uma hora” é possível.
Na primeira semana, perdi dois quilos porque não conseguia comer direito. Meu estômago estava embrulhado o tempo todo. Bebi litros de água. Litros. Toda vez que a vontade vinha, eu tomava um copo d’água. Meu corpo estava se livrando de décadas de toxinas e a água ajudava nesse processo.
No trabalho, o primeiro mês foi complicado. Eu ficava irritado com clientes, impaciente em audiências, distraído na redação de petições. Minha assistente, a Carla, que sabia que eu estava parando, cobria as pontas com uma paciência de santa. Me trazia chá de camomila, me lembrava de respirar fundo, me dava espaço quando percebia que eu estava no limite. Ter esse apoio no ambiente de trabalho foi crucial.
A Daniela foi minha rocha. Ela aguentou minhas crises de humor sem revidar. Preparava refeições saudáveis, ricos em vitamina C, que dizem ajudar na desintoxicação. Me massageava os ombros quando eu estava tenso. E toda noite, antes de dormir, colocava minha mão na barriga dela, que já começava a crescer, e dizia: “Sente? Ele está crescendo. E você está ficando mais forte.”
O cerrado de Brasília se tornou meu aliado. Comecei a fazer trilhas nos fins de semana. O Parque Nacional de Brasília, a Chapada Imperial, o Jardim Botânico. Andar no meio daquela vegetação retorcida, respirando o ar seco mas limpo, ouvindo os pássaros, era uma terapia natural. Nas primeiras caminhadas, eu ficava ofegante rápido. Depois de dois meses, eu subia morros sem parar. Meu corpo estava se recuperando numa velocidade impressionante.
O exercício virou parte fundamental da minha rotina. Comecei a nadar na piscina do clube da Asa Norte, três vezes por semana. A natação é um exercício incrível pra quem está parando de fumar porque trabalha diretamente a capacidade pulmonar. No primeiro mês, eu nadava 500 metros e ficava destruído. Depois de seis meses, nadava dois quilômetros sem dificuldade. Sentir meus pulmões se expandindo na água, absorvendo ar sem dor, sem chiado, era uma sensação libertadora.
Em novembro de 2024, nasceu o Pedro. Meu filho. Quando eu o segurei pela primeira vez, fazia seis meses que eu não fumava. Minhas mãos não cheiravam a cigarro. Minha roupa não cheirava a cigarro. Eu podia aproximar meu rosto daquele bebê minúsculo sem medo de contaminá-lo com resíduos de fumaça. A Daniela olhou pra mim com os olhos cheios d’água e disse: “Você conseguiu.” E eu pensei: sim, eu consegui.
O Pedro hoje tem um ano e quatro meses. Ele corre pelo apartamento com aquela energia infinita de criança, e eu corro atrás dele sem ficar sem ar. Nos fins de semana, levo ele pro Parque da Cidade no carrinho e ando por quilômetros. Sento na grama, olho pro céu enorme de Brasília e respiro. Simplesmente respiro. E é maravilhoso.
Financeiramente, economizei quase 16 mil reais em quase dois anos. Com parte desse dinheiro, montei o quarto do Pedro com tudo que ele precisava. Com outra parte, comprei um kit de natação profissional e me inscrevi numa prova de travessia no Lago Paranoá. Eu, que não aguentava nadar 500 metros.
Minha saúde melhorou em todos os indicadores. Pressão arterial normalizada. Capacidade pulmonar significativamente melhor. Pele mais saudável. Dentes mais brancos. Energia que eu não tinha desde os 25 anos. Meu pneumologista, o Dr. Ricardo, disse na última consulta: “Marcos, seus pulmões estão se recuperando de forma excelente. Continue assim.”
O conselho que eu dou pra quem quer parar no frio total é simples: divida o impossível em pedaços possíveis. Não pense em “nunca mais fumar.” Pense em não fumar agora. Nesta hora. Neste minuto. Quando esse minuto passar, comemore. E comece o próximo. É assim que se vence uma guerra: batalha por batalha, minuto por minuto.
Eu fumei por vinte anos. Parei de uma vez. E hoje sou pai, sou saudável, sou livre. A cada respiração sem cigarro, a cada risada com meu filho, a cada mergulho no lago, eu sei que valeu a pena. Cada segundo de sofrimento da abstinência valeu por uma vida inteira de liberdade.