Deixei o Cigarro Depois de 20 Anos com Adesivos de Nicotina: Minha Jornada
Meu nome é Lúcia Rodrigues, tenho 43 anos e moro em Brasília, na Asa Sul. Sou servidora pública, trabalho no Ministério da Saúde. A ironia não me escapa: passei 20 anos fumando enquanto trabalhava num órgão que luta contra o tabagismo. Mas essa contradição finalmente acabou. Faz 14 meses que apaguei meu último cigarro, e os adesivos de nicotina foram a ponte que me levou da escravidão à liberdade.
Brasília, estresse e cigarros
Brasília é uma cidade de contrastes. É linda de longe, com aquele horizonte imenso e o céu que parece não ter fim. Mas por dentro é uma cidade de pressão. O ritmo do funcionalismo público, as cobranças, as reuniões intermináveis, a burocracia. Quando cheguei aqui em 2005, transferida de Goiânia, o cigarro já era meu companheiro de longa data.
Comecei a fumar aos 23, em 2006, na verdade. Estava num momento difícil: tinha acabado de terminar um relacionamento longo, estava me adaptando a uma cidade nova, morando sozinha pela primeira vez. Uma colega de trabalho, a Sônia, fumava e me ofereceu um cigarro numa daquelas tardes abafadas de outubro, quando a seca de Brasília deixa tudo irritante. Aceitei. E fui aceitando, dia após dia, até que já não era oferta, era necessidade.
Minha marca era o Marlboro Light. Depois, quando tiraram o “light” da embalagem, passei pro Marlboro Gold. Como se a cor dourada fizesse alguma diferença pra minha saúde. Fumava entre 15 e 20 cigarros por dia. Comprava no quiosque da quadra 108 Sul, o Seu Antônio já separava meus dois maços antes de eu pedir.
Os rituais de Brasília
Quem mora em Brasília sabe que a vida social aqui é diferente. As quadras residenciais têm seus blocos, seus comércios locais, suas pracetas. Eu fumava na praceta do meu bloco, sentada num banco de concreto, olhando as crianças brincando no playground. Fumava no estacionamento do Ministério, onde tinha aquele grupinho de fumantes que se reunia religiosamente a cada duas horas. Fumava no carro, no congestionamento do Eixo Monumental. Fumava no Pontão do Lago Sul nos fins de semana, tentando parecer sofisticada com minha taça de vinho e meu cigarro.
Em 20 anos, eu calculo ter gasto mais de 100 mil reais com cigarro. Cem mil reais. Quando fiz essa conta pela primeira vez, fiquei em choque. Com cem mil reais eu poderia ter quitado meu carro, feito uma viagem internacional, investido na minha aposentadoria.
A gota d’água
Em novembro de 2024, fui fazer meu check-up anual. O médico pediu uma espirometria, aquele exame que mede a capacidade pulmonar. O resultado mostrou que minha função pulmonar estava 30% abaixo do esperado para minha idade. Trinta por cento. Eu tinha pulmões de uma mulher de 60 anos.
Mas o que realmente me abalou foi uma conversa com minha filha, a Isabela, de 14 anos. Ela chegou da escola um dia e me disse: “Mãe, a professora de biologia mostrou fotos de pulmões de fumantes hoje. É assim que seus pulmões são?” Ela não estava me julgando. Estava com medo. Medo de perder a mãe.
Naquela noite, deitada na cama, eu chorei. Chorei de raiva de mim mesma, de medo do futuro, de vergonha. E decidi que aquilo ia acabar.
O plano com adesivos
Consultei meu clínico geral, Dr. Fábio, que atende no Hospital de Base. Ele me indicou a terapia de reposição de nicotina com adesivos, considerando meu perfil e meu histórico. Me explicou o protocolo de redução gradual: quatro semanas com adesivo de 21mg, quatro com 14mg, e quatro com 7mg.
Comprei a primeira caixa de NiQuitin 21mg na Drogasil da 302 Sul. Custou 85 reais. Caro? Sim. Mas o maço de Marlboro Gold já estava em 14 reais. Dois maços por dia dava quase 30 reais diários. Os adesivos eram muito mais baratos que o vício.
Marquei o dia D: 2 de janeiro de 2025. Uma quinta-feira. Queria começar o ano diferente, mas sem a pressão do dia 1 de janeiro, que sempre vem carregado de promessas vazias.
O dia D e a primeira semana
Na manhã de 2 de janeiro, tomei banho, sequei bem o braço, e colei o primeiro adesivo de 21mg na parte interna, perto do ombro. Joguei fora os três maços que tinha em casa. Joguei os cinzeiros também. A Isabela me ajudou. Levamos tudo pro lixo da garagem juntas.
As primeiras horas foram surpreendentemente tranquilas. O adesivo liberava nicotina de forma constante, e o corpo não sentia aquela falta aguda. Mas no final da tarde, a vontade veio. Não era a vontade física, que o adesivo controlava. Era a vontade do gesto. A mão que procurava o maço. A boca que queria sentir a fumaça. O ritual que faltava.
Fui pro Parque da Cidade caminhar. Caminhei por uma hora. Brasília tem isso de bom: espaço. Céu aberto, horizontes largos. Respirei fundo aquele ar seco e quentinho de janeiro e pensei: “Esse ar agora vai entrar limpo.”
Na primeira semana, os maiores desafios foram a insônia e a irritabilidade. O adesivo me dava uns sonhos muito vívidos, coisa que li depois que é super comum. Comecei a tirar o adesivo antes de dormir e colocar um novo de manhã, como o Dr. Fábio sugeriu quando relatei o problema. Isso ajudou bastante com o sono. A irritabilidade eu manejava com exercício. Caminhada de manhã e ioga à noite, pelo YouTube mesmo, no tapetinho da sala.
O trabalho como campo de batalha
Voltar ao trabalho na segunda semana foi o maior teste. O grupinho do estacionamento ainda estava lá. A Sônia, aquela mesma que me ofereceu o primeiro cigarro 20 anos atrás, ainda fumava. No primeiro dia, ela me ofereceu um cigarro por hábito. Eu disse: “Parei, Sônia.” Ela arregalou os olhos. “Sério? Quanto tempo?” “Dez dias.” Ela riu, meio descrente. “Vamos ver.”
Aquele “vamos ver” me deu uma raiva produtiva. Uma raiva que virou determinação. Toda vez que pensava em fraquejar, lembrava do “vamos ver” da Sônia e pensava: “Vou provar pra ela. Vou provar pra mim.”
Mudei minha rotina no trabalho. Em vez de ir pro estacionamento nos intervalos, comecei a descer pro jardim interno do Ministério. Levava meu chá de camomila numa garrafa térmica e ficava ali, respirando, olhando as plantas. Parece coisa de coach de Instagram, mas funcionou. Criar novos rituais pra substituir os antigos é fundamental.
A transição dos adesivos
Na quinta semana, passei pro adesivo de 14mg. Senti uma diferença, uma vontade um pouco mais presente, especialmente depois do almoço e no final do dia. Mas nada comparado ao que eu tinha sentido nas vezes em que tentei parar sem nenhum auxílio, que foram duas vezes, e nas duas não durei mais que quatro dias.
Na nona semana, passei pro 7mg. Aí a coisa já estava bem mais leve. A vontade era esporádica e fraca, como um eco distante. Meu corpo já estava se acostumando com doses mínimas de nicotina, e minha mente já tinha criado novos hábitos.
Na décima segunda semana, tirei o último adesivo. Foi no final de março de 2025. E diferente do que eu temia, não houve nenhum abismo. A transição foi suave. A vontade aparecia de vez em quando, mas eu já tinha as ferramentas pra lidar: respiração, caminhada, chá, distração.
O apoio que recebi
A Isabela foi minha maior apoiadora. Ela criou um quadro num aplicativo do celular onde marcava meus dias sem fumar e calculava quanto dinheiro eu economizava. Cada vez que completava uma semana, ela vinha me abraçar e dizer: “Mais uma, mãe!” Era simples, mas era tudo.
Meu ex-marido, o Marcos, pai da Isabela, também foi gentil. Ligava toda semana pra perguntar como eu estava. A gente se separou faz seis anos, mas ele nunca deixou de se preocupar comigo como pessoa. Ele dizia: “Faz isso por você, Lú. Você merece.”
No trabalho, uma colega, a Patrícia, que tinha parado de fumar dois anos antes com o mesmo método, virou minha confidente. A gente almoçava juntas e ela me contava como tinha sido pra ela, os desafios, as vitórias. Saber que alguém já tinha passado por aquele caminho e estava bem do outro lado me dava esperança concreta.
A nova Lúcia
Hoje faz 14 meses que não fumo. E a transformação é tão profunda que às vezes eu mesma me surpreendo.
Minha capacidade pulmonar melhorou significativamente. Refiz a espirometria seis meses depois de parar e o resultado já mostrava melhora de 15%. O Dr. Fábio disse que em dois a três anos posso recuperar mais. Os pulmões se regeneram. Não completamente, mas muito mais do que eu imaginava.
Comecei a correr no Parque da Cidade. Eu, que não corria desde a faculdade. No começo era ridículo, corria três minutos e parava. Mas fui persistindo. Hoje corro 5 quilômetros três vezes por semana. Participei da Corrida de Brasília no aniversário da cidade, em abril de 2025, e completei os 5K em 32 minutos. Cruzei a linha de chegada com a Isabela me esperando, segurando um cartaz que dizia: “Minha mãe é guerreira.”
Economizei mais de 12 mil reais. Com parte desse dinheiro, compramos passagens pra Fernando de Noronha. Eu e a Isabela, mãe e filha, mergulhando naquelas águas transparentes. Eu, que antes ficava ofegante subindo uma escada, mergulhando no mar com tubo de snorkel e respirando plenamente.
A Sônia, aquela do “vamos ver”? Ela me procurou três meses atrás. “Lú, me ajuda. Quero parar também.” Dei pra ela o número do Dr. Fábio e contei tudo sobre os adesivos. Ela começou o tratamento no mês passado. Torço por ela todos os dias.
A ironia da minha vida se transformou em coerência. Trabalho no Ministério da Saúde e finalmente posso falar sobre saúde sem a hipocrisia de um maço de cigarros na bolsa. Isso me dá uma paz que eu não sabia que existia.
Meu nome é Lúcia Rodrigues. Fumei por 20 anos. E hoje, debaixo desse céu enorme de Brasília, eu respiro livre.