Parei de Fumar no Frio Total Depois de 10 Anos e Nunca Olhei para Trás
Parei de Fumar no Frio Total Depois de 10 Anos e Nunca Olhei para Trás
Meu nome é Letícia Torres, tenho 33 anos e moro em Belo Horizonte. Fumei por dez anos e parei de uma vez, sem remédio, sem adesivo, sem goma, sem nada. Frio total. E estou aqui para contar que foi a coisa mais difícil e mais gratificante que já fiz na vida.
Comecei a fumar com 22 anos, no meu primeiro ano de mestrado em arquitetura na UFMG. A vida acadêmica em BH tem uma cultura própria. As noites na Savassi, os bares do Santa Tereza, os saraus no bairro Floresta. O cigarro era presença constante nesses ambientes. Eu era tímida e o cigarro me dava algo para fazer com as mãos nas festas. Me dava uma desculpa para puxar conversa. “Tem fogo?” era o início de muitas amizades e, confesso, de alguns romances.
No começo fumava aqueles cigarros mais “suaves”, o Free azul, porque achava que era menos prejudicial. Com o tempo passei para o Marlboro vermelho porque uma amiga disse que o Free era “cigarro de quem não fuma de verdade.” A pressão social é real, mesmo quando a gente acha que é independente. Em pouco tempo, já era um maço por dia, todo dia, sem exceção.
Terminei o mestrado, comecei a trabalhar num escritório de arquitetura no Lourdes e o cigarro veio junto. Fumava na sacada do escritório entre projetos, na hora do almoço no Self Service da esquina, no trânsito parada no anel rodoviário. Fumava em casa, no apartamento que dividia com duas amigas na Pampulha. Fumava na casa da minha mãe em Contagem quando ia almoçar no domingo. A fumaça era onipresente na minha vida.
Os sinais de que algo não estava bem começaram por volta dos 28 anos. Minha pele, que sempre foi bonita, começou a ficar opaca. As olheiras escureceram. Meu dentista alertou que minhas gengivas estavam retraindo, um efeito direto do cigarro. Minha resistência física caiu a ponto de eu ficar ofegante subindo a ladeira do bairro Serra para ir ao escritório.
Mas a coisa que mais me incomodava era o cheiro. Sou arquiteta. Visito obras, encontro clientes, faço apresentações. E eu sempre cheirava a cigarro. Passava perfume por cima, mascava chiclete, lavava as mãos com sabonete três vezes, mas o cheiro estava ali. Uma cliente uma vez torceu o nariz durante uma reunião e eu percebi. Não disse nada, mas percebi. Aquilo me humilhou de um jeito que eu nunca esqueço.
Tentei reduzir antes de parar de vez. A famosa estratégia de “fumar menos.” Passei de um maço para meio maço. Funcionou por duas semanas. Depois voltei para um maço porque os cigarros que eu fumava tinham que ser mais intensos para compensar, e no final a conta era a mesma. Tentei trocar por vape e comprei um dispositivo Juul. Resultado: fumava cigarro E vape. Gastava mais, consumia mais nicotina e me sentia ainda pior.
A decisão de parar de verdade veio em agosto de 2025. Fui a uma consulta de rotina com minha ginecologista, a Dra. Cláudia Neves, e ela me perguntou se eu pretendia ter filhos. Eu disse que sim, que era algo que eu queria para os próximos anos. Ela me olhou com seriedade e disse: “Letícia, você precisa parar de fumar. Não é só pela sua saúde. É pela fertilidade, é pela gravidez, é pela saúde do bebê. E não é para parar quando engravidar. É para parar agora, para o corpo se recuperar antes.”
Ela me mostrou estudos sobre como o tabagismo afeta a fertilidade feminina. Reduz a reserva ovariana, dificulta a implantação do embrião, aumenta risco de aborto espontâneo. Eu sabia que fumar fazia mal, mas nunca tinha pensado nesse aspecto. A ideia de que o cigarro poderia me impedir de ser mãe me atingiu de uma forma que nenhum aviso sobre câncer de pulmão tinha conseguido.
Saí do consultório e liguei para minha mãe. Contei tudo que a Dra. Cláudia tinha dito. Minha mãe, dona Marta, que sempre me pediu para parar mas nunca me pressionou demais, ficou em silêncio e depois disse: “Filha, você é forte. Você consegue.” Simples assim. E aquilo me deu uma certeza que eu não tinha antes.
Marquei a data: 1 de setembro de 2025. Fumei meu último cigarro em 31 de agosto, sentada no banco da Praça da Liberdade, olhando os prédios iluminados. Fumei devagar, prestando atenção em cada trago, como se estivesse me despedindo de alguém. E de certa forma estava. Estava me despedindo de uma versão de mim mesma que existia há dez anos.
O dia 1 foi surreal. Acordei e a primeira coisa que meu corpo pediu foi o cigarro. Era automático, muscular quase. Minha mão procurava o maço na mesinha de cabeceira. Levantei, tomei um banho gelado e fiz um café. O café sem cigarro era como assistir a um filme sem som. Faltava alguma coisa. Mas bebi assim mesmo.
No trabalho, os gatilhos estavam em todo canto. A pausa das dez horas, quando eu ia para a sacada. O pós-almoço, que era o momento mais difícil de todos. A cerveja no fim do expediente com os colegas no bar do Beco. Cada um desses momentos era um campo minado.
Minha estratégia foi brutal mas eficaz: eu simplesmente segurava o desconforto. Quando a vontade vinha, eu olhava no relógio e dizia para mim mesma: “Isso vai passar em três minutos.” E passava. Às vezes em três, às vezes em cinco, às vezes em dez. Mas sempre passava. Eu contava no relógio do celular. Cronometrava a fissura. E toda vez que ela ia embora sem eu ter fumado, eu sentia uma vitória pequena mas real.
Na primeira semana perdi o sono. Ficava deitada na cama às duas da manhã com o coração acelerado, a mente inquieta, o corpo pedindo algo que eu não ia dar. Levantava, fazia chá de erva-cidreira que minha mãe me mandou de Contagem, e ficava na varanda do apartamento olhando a cidade. Belo Horizonte de madrugada é silenciosa e bonita. Nesses momentos eu respirava o ar frio da noite mineira e pensava: “Isso é o ar entrando limpo nos meus pulmões. É isso que eu quero.”
A segunda semana trouxe a irritabilidade. Briguei com meu namorado, o Gustavo, por causa de uma louça na pia. Fui grossa com uma estagiária no escritório por um erro simples num projeto. Chorei no banheiro do escritório duas vezes. Mas não fumei. O Gustavo foi incrível. Ele nunca fumou e não entende completamente o que é abstinência de nicotina, mas ele entende o que é apoiar alguém. Ele ficava do meu lado, me trazia água com limão, colocava música calma, me levava para caminhar no Parque das Mangabeiras quando eu estava a ponto de explodir.
Na terceira semana, algo mudou. A névoa começou a levantar. A vontade de fumar ainda aparecia, mas já não era constante. Vinha em ondas, duas ou três vezes por dia, e passava mais rápido. Meu paladar começou a voltar. O pão de queijo da padaria no Funcionários tinha um sabor que eu não lembrava. O café que eu bebia todo dia revelou notas que estavam escondidas pela fumaça. Fui a um restaurante no Santa Tereza com o Gustavo e quase chorei com o gosto da comida mineira. O tutu, o feijão tropeiro, a couve. Tudo tinha dimensões de sabor que eu tinha perdido.
O primeiro mês completo sem cigarro foi o mais transformador. Minha pele começou a clarear. As olheiras diminuíram. Meu cabelo, que era seco e sem vida, ganhou brilho. A tosse que eu achava que era “normal” desapareceu completamente. Comecei a correr no Parque das Mangabeiras, primeiro dois quilômetros, depois três, depois cinco. A sensação de encher os pulmões de ar puro enquanto corro na trilha do parque, com a vista de BH lá embaixo, é algo que nenhum cigarro jamais me deu.
Agora são sete meses sem fumar. Sete meses de pulmões recuperando, de pele renovando, de sabores voltando. Fiz novos exames com a Dra. Cláudia e ela disse que meus indicadores reprodutivos já estão melhores. Minha reserva ovariana está dentro do esperado para minha idade. Meu corpo está se curando.
Financeiramente, já economizei mais de três mil reais. Esse dinheiro foi direto para uma poupança que chamei de “fundo futuro” no aplicativo do banco. Quando um dia eu tiver um filho, vou mostrar essa poupança e dizer: “Isso aqui era dinheiro de cigarro que a mamãe parou de gastar antes de você nascer.”
A parte mais difícil de parar no frio total é que não tem muleta. Não tem goma para mastigar, não tem adesivo liberando nicotina, não tem remédio regulando neurotransmissores. É você contra o vício, cara a cara, todos os dias. Mas a parte mais bonita também é exatamente essa. Cada dia que passa, você sabe que foi você que conseguiu. Não foi a química ajudando. Foi a sua vontade, a sua teimosia, a sua decisão.
Não estou dizendo que a minha forma é melhor que as outras. Cada pessoa sabe o que precisa. Mas para mim, o frio total funcionou porque me deu propriedade total sobre a vitória. Quando alguém me pergunta como eu parei, eu digo: “Eu simplesmente parei.” E isso me enche de um orgulho que nenhuma promoção no trabalho, nenhum projeto premiado, nenhuma conquista profissional me deu.
Meu nome é Letícia Torres, tenho 33 anos, sou arquiteta, sou mineira e sou livre do cigarro. E o ar de Belo Horizonte nunca foi tão bom.