Como o Champix Me Ajudou a Parar de Fumar Após 23 Anos em Curitiba
Meu nome é Isabela Rocha, tenho 46 anos e moro em Curitiba. Fumei por 23 anos, desde os meus 23 até os meus 44. Quase a metade exata da minha vida. Hoje faz um ano e nove meses que eu larguei o cigarro com a ajuda do Champix, e posso dizer com toda a convicção: foi a melhor decisão que já tomei. Não foi fácil, não foi rápido e não foi indolor. Mas foi possível. E o possível, às vezes, é tudo que a gente precisa saber.
Cresci em Curitiba, no bairro do Boqueirão, filha de pais gaúchos que vieram do interior do Rio Grande do Sul nos anos oitenta em busca de trabalho. Meu pai, Seu Valdir, era motorista de ônibus e fumava desde os 16 anos. Carlton era o cigarro dele. O cheiro do Carlton é uma das primeiras memórias da minha infância. Ele fumava no sofá assistindo o Jornal Nacional, fumava na mesa depois do jantar, fumava na varanda olhando a chuva que em Curitiba parece não ter fim. Minha mãe implicava, mas ele nunca parou. Morreu em 2018 de um infarto, aos 67 anos. Os médicos disseram que o tabagismo foi um fator determinante.
Apesar de ter crescido vendo meu pai fumar e vendo minha mãe sofrer com isso, comecei a fumar. Irônico, eu sei. Foi em 2003, quando eu trabalhava como vendedora numa loja de roupas femininas no Shopping Estação. Minha chefe fumava, minha colega de turno fumava, e as pausas para o cigarro eram o único respiro (sem trocadilho) que a gente tinha naquele expediente puxado. Comecei com um ou dois cigarros por dia, pedindo da minha colega Lúcia. Em três meses já comprava meu próprio maço de Marlboro Light todo dia.
O vício foi se instalando de forma silenciosa e gradual. Com 25 anos eu fumava meio maço por dia. Com 30, um maço inteiro. Com 35, um maço e pouco. O cigarro estava costurado na minha rotina de um jeito tão profundo que eu não conseguia mais separar o que era eu e o que era o vício. Eu era a Isabela que fumava, e não conseguia imaginar uma Isabela que não fumasse.
Curitiba tem um frio que é companheiro perfeito do cigarro. Aquelas manhãs geladas de julho, com a temperatura chegando perto de zero, eu ficava na varanda do meu apartamento no Alto da XV com um café e um cigarro, vendo a cerração cobrir a cidade. Parecia um momento romântico, quase poético. Mas não tinha nada de romântico. Era dependência química disfarçada de hábito aconchegante.
Meus gatilhos eram vários. O frio, o café, o vinho tinto que eu adorava tomar nos fins de semana, as conversas longas no telefone, o estresse do trabalho (depois da loja, eu passei a trabalhar como corretora de imóveis), e principalmente a ansiedade. Eu sempre fui uma pessoa ansiosa, e o cigarro era minha falsa muleta. Digo falsa porque ele não resolvia a ansiedade. Na verdade, a ciência mostra que ele piora. Mas na hora, naqueles cinco minutos de tragada, parecia que tudo ficava mais calmo.
Tentei parar quatro vezes antes do Champix. A primeira vez, em 2012, tentei no frio total e durei uma semana. A segunda vez, em 2015, usei adesivos de nicotina por um mês, mas tive uma reação alérgica na pele que me obrigou a parar o tratamento. A terceira vez, em 2018, logo depois da morte do meu pai, tentei com goma de nicotina Nicorette, mas a goma me dava dor de estômago e eu não conseguia mastigar direito. A quarta vez, em 2020, na pandemia, tentei com um aplicativo de celular. Durei três semanas, mas o isolamento e a ansiedade da Covid me fizeram voltar a fumar com ainda mais intensidade.
Cada fracasso era devastador. Eu me sentia fraca, incapaz, sem força de vontade. Meu marido, o Rodrigo, sempre me apoiou, mas eu via nos olhos dele uma certa descrença quando eu anunciava mais uma tentativa. Meus filhos, a Luísa de 17 e o Pedro de 14, me pediam pra parar. A Luísa fez um trabalho escolar sobre os males do tabagismo e me mostrou. Eu li, concordei com tudo, fiquei emocionada e acendi um cigarro logo depois. O vício é assim: ele não respeita razão, lógica ou amor.
O ponto de inflexão veio em junho de 2024. Eu estava correndo atrás de fechar uma venda de um apartamento no bairro Ecoville, subindo e descendo escadas de prédios, mostrando imóveis para clientes, e comecei a sentir um cansaço desproporcional. Subia dois lances de escada e ficava sem ar. Meu peito doía. Minha voz estava rouca o tempo todo. Uma cliente olhou pra mim enquanto eu tentava recuperar o fôlego e disse: “A senhora está bem?” Eu tinha 44 anos e uma cliente achou que eu não estava bem subindo dois andares de escada. Aquilo foi humilhante.
Marquei consulta com a Dra. Cláudia, pneumologista no Hospital de Clínicas da UFPR. Ela fez todos os exames, espirometria, raio-x, e me disse que minha função pulmonar estava comprometida. Nada gravíssimo ainda, mas claramente afetada por 23 anos de tabagismo. E então ela me perguntou: “Isabela, você já tentou Champix?” Eu disse que não, que tinha medo dos efeitos colaterais. Ela me explicou com paciência. Champix é a vareniclina, um medicamento que age nos receptores de nicotina no cérebro. Ele faz duas coisas: reduz o prazer que você sente ao fumar e diminui os sintomas de abstinência. É como se ele tirasse a graça do cigarro e ao mesmo tempo amenizasse a dor de ficar sem ele.
A Dra. Cláudia foi muito honesta sobre os possíveis efeitos colaterais. Náusea era o mais comum. Alguns pacientes relatavam alterações de humor, sonhos vívidos, dificuldade pra dormir. Ela disse que ia me acompanhar de perto e que, ao primeiro sinal de algo preocupante, ajustaríamos o tratamento. Saí do consultório com a receita e fui direto à farmácia Drogasil comprar o Champix.
O tratamento com Champix começa devagar. Na primeira semana, você toma uma dose pequena e continua fumando normalmente. Na segunda semana, aumenta a dose e marca uma data para parar. A minha data foi 1 de julho de 2024, uma segunda-feira.
Logo na primeira semana, percebi algo estranho: os cigarros estavam ficando sem graça. Eu acendia, tragava, e pensava: “Por que mesmo eu gosto disso?” O sabor estava diferente, menos satisfatório. Era exatamente o que a Dra. Cláudia tinha descrito. O Champix estava fazendo seu trabalho.
No dia 1 de julho, fumei meu último cigarro às 6h45 da manhã, antes de sair de casa. Estava fazendo três graus em Curitiba, uma manhã gelada típica de inverno. Apaguei o cigarro, joguei o maço no lixo e disse pro Rodrigo: “Pronto. Era o último.” Ele me abraçou e disse: “Eu acredito em você.”
As primeiras semanas tiveram desconfortos. A náusea foi real, especialmente nos primeiros dez dias. Eu tomava o Champix sempre depois de comer, como a médica orientou, e isso ajudava bastante. Os sonhos vívidos também vieram. Nada de pesadelo, mas sonhos intensos e detalhados que eu lembrava perfeitamente ao acordar. Era como assistir um filme toda noite. Com o tempo, isso passou.
O mais difícil foi quebrar os rituais. O café com cigarro, o cigarro depois do almoço, o cigarro antes de dormir. Cada um desses momentos era uma mini batalha. Eu substituí o cigarro do café por um pedaço de chocolate amargo. O do almoço por uma caminhada de dez minutos ao redor do quarteirão. O da noite por um chá de camomila. Parece simples escrevendo, mas na hora, com a vontade batendo, cada substituição exigia um esforço enorme.
A Luísa foi minha parceira secreta. Ela criou um calendário no computador e imprimiu pra mim, com cada dia marcado como uma casinha. Toda noite, antes de dormir, eu pintava a casinha do dia com uma cor diferente. Era a minha forma de visualizar o progresso. No final do primeiro mês, eu tinha 30 casinhas coloridas e um orgulho que cabia no peito.
O Pedro, mais reservado, demonstrou apoio do jeito dele. Parou de sair com os amigos que fumavam e me disse baixinho um dia: “Mãe, eu nunca vou fumar. Prometo.” Aquilo me deu uma força que eu não sabia que precisava.
Mantive o Champix por 12 semanas completas. A Dra. Cláudia me acompanhou quinzenalmente. Nos últimos dias de tratamento, eu praticamente nem lembrava mais do cigarro. A vontade tinha se tornado tão pequena, tão insignificante, que eu passava dias inteiros sem pensar nele. Quando parei o medicamento, a transição foi suave. Sem crise, sem desespero. Eu já estava livre.
Os resultados no meu corpo foram extraordinários. Em um mês, minha capacidade respiratória melhorou visivelmente. Em três meses, eu estava subindo escadas sem dificuldade nenhuma. Minha pele, que tinha aquela aparência acinzentada de fumante, ganhou cor e vida. Minhas unhas ficaram mais fortes. Meu cabelo parou de cair tanto. Fiz uma nova espirometria seis meses depois de parar e a Dra. Cláudia disse que os números estavam significativamente melhores.
Financeiramente, eu gastava cerca de 500 reais por mês com cigarro. Em quase dois anos, são mais de 10 mil reais economizados. Com parte desse dinheiro, reformei o banheiro de casa, um sonho que eu adiava há anos. Com outra parte, comprei uma bicicleta e comecei a pedalar no Parque Barigui nos fins de semana. Eu, que não aguentava subir escada, agora pedalo quilômetros pelo parque no meio dos pinheiros, com aquele ar gelado de Curitiba nos pulmões. E é maravilhoso.
Meu pai não conseguiu parar de fumar. Ele tentou, eu sei que tentou, mas não teve a ajuda certa na hora certa. Eu gosto de pensar que, de alguma forma, ele estaria orgulhoso de mim. Que a minha vitória, de certo modo, também é um pouco dele.
Se você está pensando em parar de fumar e já tentou de tudo, considere o Champix. Converse com seu médico. Não é vergonha nenhuma precisar de medicamento. O cigarro altera a química do seu cérebro, e às vezes você precisa de química para combater química. O Champix me deu a ferramenta que eu precisava. O resto foi coragem, apoio e muita, muita determinação.
Hoje eu sou a Isabela que não fuma. E essa Isabela é muito mais feliz.