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Deixei de Fumar aos 61 Anos com Adesivos de Nicotina: A Minha História em Lisboa

8 min read Updated March 29, 2026

Chamo-me Hugo Carvalho, tenho 61 anos e vivo em Lisboa. Fumei durante 38 anos. Trinta e oito anos. Quando escrevo este número, ainda me custa acreditar. Mais de metade da minha vida a envenenar-me. Mas há catorze meses que não toco num cigarro, e estou a contar-vos esta história porque quero que saibam que nunca é tarde demais. Mesmo aos 61 anos, mesmo depois de quase quatro décadas, é possível deixar de fumar. Eu sou a prova viva disso.

Comecei a fumar em 1988, quando tinha 23 anos. Era soldado no Exército Português, estava destacado em Tancos, e o cigarro fazia parte da vida militar tanto como as botas e a farda. Toda a gente fumava. Nos intervalos da instrução, durante as vigílias nocturnas, depois das refeições no refeitório. O meu primeiro cigarro foi um SG Gigante que um camarada me ofereceu numa noite fria de janeiro. Lembro-me perfeitamente: o sabor forte, a tontura ligeira, a sensação de pertencer ao grupo. A partir daí, nunca mais parei.

Depois do serviço militar, voltei a Lisboa e comecei a trabalhar como canalizador, ofício que aprendi com o meu pai. Durante décadas, o meu dia começava da mesma forma: acordava às seis da manhã no meu apartamento em Benfica, fazia um café na moka italiana, e fumava o primeiro cigarro do dia na cozinha enquanto a minha mulher, a Fernanda, ainda dormia. Depois fumava no carro a caminho da obra. Fumava nos intervalos. Fumava ao almoço. Fumava no regresso a casa. Fumava depois do jantar. Um maço e meio de Português Suave por dia, no mínimo. Nos dias de mais tensão, chegava aos dois maços.

O Português Suave era o meu cigarro. Sei que pode parecer estranho ter afinidade com uma marca, mas é assim. Quando o Português Suave foi descontinuado, passei para o Chesterfield, mas nunca foi igual. Parecia-me que estava a trair um velho amigo. Acabei por me habituar, como nos habituamos a tudo, e o Chesterfield passou a ser o meu companheiro de todos os dias.

Os meus gatilhos eram demasiados para enumerar. O café era o maior. Eu era incapaz de beber um café sem fumar. Impossível. O café e o cigarro eram um par inseparável, como o bacalhau e o azeite. Depois havia o trânsito de Lisboa, que é capaz de enlouquecer qualquer pessoa. Ficar parado na Segunda Circular durante quarenta minutos dava-me uma ansiedade que só o cigarro aliviava. E as noites de futebol: ver o Benfica jogar sem fumar era impensável. Quando o Benfica perdia, fumava de raiva. Quando ganhava, fumava de alegria. O cigarro estava sempre lá, fosse qual fosse a emoção.

A Fernanda sempre me pediu para deixar de fumar. No início do nosso casamento, nos anos noventa, ainda era mais tolerada a coisa, mas com o passar dos anos ela foi ficando mais insistente. Quando nasceu a nossa filha Beatriz, em 1997, prometi que ia parar. Não parei. Quando nasceu o nosso filho Tomás, em 2001, prometi outra vez. Não parei outra vez. A Fernanda deixou de acreditar nas minhas promessas e eu deixei de as fazer. Era mais honesto assim.

Tentei deixar de fumar quatro vezes ao longo destes 38 anos. A primeira vez foi em 2003, frio total. Durei três dias. A segunda vez foi em 2009, experimentei pastilhas de nicotina, mas davam-me azia e desisti ao fim de uma semana. A terceira vez foi em 2015, o médico de família receitou-me Champix, mas tive efeitos secundários que me assustaram: náuseas fortes e pesadelos horríveis. Parei o Champix ao fim de dez dias. A quarta vez foi em 2019, tentei com um cigarro electrónico, mas apenas acrescentei mais um vício ao que já tinha.

Cada tentativa falhada reforçava a minha convicção de que eu era simplesmente incapaz de deixar de fumar. Que era uma fraqueza de carácter. Que nasci fumador e ia morrer fumador. A Fernanda dizia-me: “Hugo, tu és teimoso para tudo menos para isto.” E eu encolhia os ombros e acendia mais um cigarro.

O momento que mudou tudo aconteceu em dezembro de 2024. Fui ao meu médico de família, o Dr. Nuno Ferreira, no Centro de Saúde de Benfica, para uma consulta de rotina. Ele pediu-me análises e uma TAC ao tórax. Quando os resultados chegaram, o Dr. Nuno chamou-me ao consultório com uma expressão séria. Tinha manchas nos pulmões. Nada de maligno, garantiu-me, mas sinais claros de DPOC, doença pulmonar obstrutiva crónica, em fase inicial. Disse-me que se eu parasse de fumar agora, a doença podia estabilizar. Se continuasse, ia piorar inevitavelmente. “Hugo, tem 60 anos. Pode ter mais vinte ou trinta anos de vida boa pela frente. Mas só se deixar de fumar.”

Nessa noite, em casa, contei à Fernanda. Ela chorou. A Beatriz, que agora tem 28 anos e é enfermeira no Hospital de Santa Maria, ligou-me e disse com aquela voz firme que ela tem: “Pai, desta vez é a sério. E eu vou ajudar-te.” O Tomás, que estuda Engenharia no Técnico, mandou-me uma mensagem longa que me fez chorar: dizia que queria que eu estivesse presente no seu casamento, no nascimento dos netos, em todos os momentos que ainda estavam por vir.

Voltei ao Dr. Nuno e disse-lhe que queria tentar outra vez. Dado o meu historial com o Champix e as pastilhas, ele sugeriu adesivos de nicotina. Explicou-me que os adesivos iam libertar nicotina de forma constante ao longo do dia, reduzindo os sintomas de abstinência sem o pico que o cigarro dá. Recomendou-me a marca NiQuitin, começando pela dosagem mais alta de 21 mg durante seis semanas, depois reduzindo para 14 mg durante mais duas semanas, e finalmente 7 mg durante as últimas duas semanas.

Desta vez, fiz as coisas de maneira diferente. Não tentei sozinho. A Beatriz inscreveu-me numa consulta de cessação tabágica no Hospital Pulido Valente, onde uma psicóloga, a Dra. Margarida, me acompanhou semanalmente. A Fernanda tirou todo o tabaco de casa e avisou os amigos e vizinhos para não me oferecerem cigarros. O Tomás instalou-me uma aplicação no telemóvel que contava os dias sem fumar e o dinheiro poupado.

Coloquei o primeiro adesivo NiQuitin no braço no dia 6 de janeiro de 2025. Lembro-me de o colar na pele e pensar: “Isto é um bocadinho de dignidade que estou a colar em mim.” A sensação foi estranha nas primeiras horas. Não sentia a urgência habitual de fumar, mas também não me sentia completamente bem. Era como estar num limbo entre o vício e a liberdade.

Os primeiros dias foram difíceis, não vou mentir. Mesmo com o adesivo, sentia falta do gesto, do ritual. Pegar no cigarro, acendê-lo, dar a primeira tragada. O adesivo trata da nicotina, mas não trata do hábito. Para isso, a Dra. Margarida ensinou-me técnicas de substituição. Quando me apetecia fumar, eu apertava uma bola de stress que a Beatriz me comprou. Ou mastigava uma pastilha de hortelã. Ou dava uma volta ao quarteirão. Parece simplista, mas funciona.

O café sem cigarro foi o meu maior desafio. Durante 38 anos, nunca bebi um café sem fumar a seguir. A Dra. Margarida sugeriu-me que mudasse o ritual completamente. Em vez de café de manhã, passei a beber chá. Sei que para um português isto é quase uma heresia, mas funcionou. Quebrou a associação mental. Ao fim de dois meses, voltei ao café, e já não sentia a necessidade de fumar com ele.

As noites de futebol foram outro teste. Na primeira vez que vi o Benfica jogar sem fumar, estava inquieto como uma criança na missa. Mexia-me no sofá, roía as unhas, levantava-me e sentava-me. A Fernanda ficou ali ao meu lado, calada, paciente. No intervalo, em vez de ir fumar à varanda como fazia sempre, fui à cozinha descascar uma laranja. O Benfica ganhou 3-1 e eu celebrei sem cigarro. Foi estranho, mas foi bom.

A redução dos adesivos foi gradual e bem gerida. Quando passei de 21 mg para 14 mg, senti um ligeiro aumento da vontade de fumar durante dois ou três dias, mas nada que não fosse suportável. A passagem de 14 mg para 7 mg foi mais fácil. E quando chegou o dia de retirar o último adesivo, ao fim de dez semanas, eu estava preparado. O corpo já se tinha habituado a funcionar com menos nicotina. A cabeça já estava noutro sítio.

Os benefícios foram aparecendo aos poucos, como flores na primavera. Primeiro foi o olfacto. Comecei a sentir cheiros que tinha esquecido: o aroma dos pastéis de nata da Manteigaria, o perfume da Fernanda que ela usa há trinta anos e que eu já mal distinguia, o cheiro da chuva nas ruas de Lisboa. Depois foi a respiração. Subir a Rua Augusta até ao Chiado já não me deixava esbaforido. Conseguia carregar as ferramentas de trabalho sem ficar sem fôlego.

Agora, catorze meses depois, a minha vida é outra. O Dr. Nuno repetiu os exames e disse que a DPOC estabilizou, exatamente como esperava. Disse-me, com um sorriso: “Hugo, os seus pulmões estão a agradecer-lhe.” Eu retomei caminhadas longas que não fazia há anos. Aos domingos, a Fernanda e eu vamos passear até Belém, junto ao rio, e eu respiro aquele ar sem tossir, sem pieira, sem dor.

Poupo cerca de 200 euros por mês que gastava em tabaco. Num ano, são quase 2.500 euros. Com esse dinheiro, a Fernanda e eu fomos passar uma semana aos Açores em setembro passado. Caminhámos à volta da Lagoa das Sete Cidades, subimos ao Pico da Vara, e eu fiz tudo sem parar para recuperar o fôlego. Aos 61 anos, estava a fazer coisas que não conseguia fazer aos 55.

A minha neta, a Leonor, filha da Beatriz, nasceu há três meses. Quando a peguei ao colo pela primeira vez, cheirava a bebé, a leite, a vida nova. E eu pensei: esta criança nunca me vai conhecer como fumador. Nunca vai ter memórias do avô com cheiro a tabaco. Isso vale mais do que qualquer coisa.

Para quem está a ler isto com 50, 60, 70 anos e acha que já não vale a pena tentar, eu digo-vos: vale. Vale sempre. Eu fumei durante 38 anos e consegui deixar de fumar aos 61. Se eu consegui, vocês também conseguem. Procurem ajuda médica. Os adesivos funcionaram para mim quando mais nada funcionou. E não desistam. Se falharem, tentem outra vez. Cada tentativa é um passo mais perto da liberdade. E a liberdade, posso garantir-vos, é maravilhosa.