O Zyban Deu-me a Estabilidade que Precisava para Deixar de Fumar
O Zyban Deu-me a Estabilidade que Precisava para Deixar de Fumar
Chamo-me Gustavo Mendes, tenho 47 anos e sou do Porto. Fumei durante 24 anos e deixei de fumar com a ajuda do Zyban. Esta é a história de um homem que pensava que nunca iria conseguir e que descobriu que a medicação certa, no momento certo, com o apoio certo, pode mudar tudo.
Comecei a fumar aos 23 anos, em 2002, quando trabalhava como técnico de som em bares e salas de concertos no Porto. A noite portuense era o meu mundo. Trabalhava no Maus Hábitos, no Plano B, no Hard Club, em salas de espectáculo espalhadas pela cidade. A cultura da noite e o tabaco estavam tão misturados que era impossível separar uma coisa da outra. Toda a gente fumava. Os músicos, os bartenders, os seguranças, o público. Eu respirava fumo passivo durante horas e, a certa altura, pareceu-me mais lógico fumar activamente do que continuar a ser fumador passivo involuntário.
O meu cigarro era o Camel sem filtro. Sim, sem filtro. Os amigos gozavam comigo, diziam que era masoquismo, mas eu gostava da intensidade. Fumava-o como se fosse uma declaração de personalidade, o que, olhando para trás, era apenas uma forma sofisticada de me envenenar. Com o tempo passei para o Camel com filtro, não por preocupação com a saúde, mas porque me cansei de ter os dedos sempre amarelos.
O meu consumo estabilizou-se num maço e meio por dia. Os horários nocturnos não ajudavam. Acabava de trabalhar às três, quatro da manhã, demasiado estimulado para dormir, e ficava na cozinha a fumar enquanto descomprimia. Fumava enquanto ouvia música. Fumava enquanto via filmes. Fumava enquanto cozinhava. Fumava enquanto falava ao telefone. Não havia praticamente nenhum momento do dia que não envolvesse um cigarro.
Casei com a Inês aos 30 anos. Ela fumava também, embora menos do que eu. Tínhamos isso em comum, para o bem e para o mal. Tivemos o Martim em 2012 e a Leonor em 2015. A Inês deixou de fumar na primeira gravidez e nunca voltou. Eu admirei-a profundamente por isso, mas não a segui. Disse-me que pararia quando estivesse pronto. “Pronto” tornou-se uma palavra que repetia há anos sem lhe dar significado.
O meu trabalho mudou ao longo dos anos. Saí da noite, abri uma empresa de produção de eventos e comecei a fazer sonorização para festivais, conferências, casamentos. O negócio cresceu, o stress também, e o tabaco acompanhou. Nos dias de evento, quando tinha de montar equipamento às seis da manhã e desmontar às duas da manhã do dia seguinte, facilmente fumava dois maços.
A saúde foi-se degradando de forma gradual mas consistente. Aos 40, comecei a ter infecções respiratórias frequentes. Duas a três por inverno. Bronquites que duravam semanas, com tosse produtiva e falta de ar. O meu médico de família, o Dr. Paulo Ferreira, no Centro de Saúde de Paranhos, alertava-me em todas as consultas. Eu acenava com a cabeça, dizia que ia pensar nisso, e marcava nova consulta para seis meses depois.
Aos 44, tive um episódio de apneia do sono diagnosticado. O otorrinolaringologista disse que o tabaco agravava significativamente o quadro. Passei a dormir com CPAP, uma máquina que me forçava ar durante a noite. A Inês dizia que parecia que estava a dormir com Darth Vader. Mas nem isso me fez parar.
O momento de viragem aconteceu em Abril de 2025. Fui a um festival de música no Parque da Cidade do Porto como responsável técnico de som. Era um evento ao ar livre, três palcos, dois dias. No segundo dia, enquanto subia as escadas de acesso ao palco principal com um cabo nos ombros, senti uma falta de ar tão intensa que tive de me sentar no chão. Os meus colegas vieram a correr, pensaram que era o coração. Ficaram em pânico. Eu ficava ali sentado, a puxar ar, sem conseguir encher os pulmões. Passados cinco minutos consegui levantar-me, mas o susto ficou.
Nessa noite, deitado na cama com o CPAP ligado, prometi a mim mesmo que ia parar. Mas desta vez sabia que precisava de ajuda. Já tinha tentado duas vezes a frio e falhado miseravelmente. Na primeira vez, durei quatro dias. Na segunda, nove. Nas duas vezes, o que me derrubou não foi tanto a vontade física, mas o estado de espírito. Ficava profundamente irritável, quase deprimido, sem energia, sem motivação. A Inês descrevia-me como uma pessoa diferente durante essas tentativas. Agressivo, distante, escuro.
Marquei consulta com o Dr. Paulo e contei-lhe tudo. Ele ouviu-me com atenção e fez uma pergunta que ninguém me tinha feito antes: “Gustavo, alguma vez foi diagnosticado com ansiedade ou depressão?” Pensei e disse que não, mas que tinha fases em que me sentia muito em baixo, especialmente no inverno. Ele explicou-me que havia uma medicação chamada Zyban, cujo princípio activo é a bupropiona, que funcionava simultaneamente como antidepressivo e como auxiliar na cessação tabágica. Para o meu perfil, em que as tentativas anteriores tinham falhado por causa do impacto no humor, poderia ser particularmente indicada.
Fez-me análises de sangue, avaliou a minha tensão arterial, perguntou sobre historial de convulsões na família, e como tudo estava dentro dos parâmetros, receitou-me Zyban. A prescrição era começar a tomar uma semana antes da data de cessação, para que o medicamento atingisse o nível terapêutico no organismo.
Comecei o Zyban na primeira semana de Maio de 2025. Um comprimido de 150mg de manhã durante três dias, depois dois comprimidos por dia, um de manhã e outro à tarde, com pelo menos oito horas de intervalo. A data marcada para deixar de fumar foi 12 de Maio.
O que notei nos primeiros dias de medicação, ainda enquanto fumava, foi surpreendente. Os cigarros começaram a saber diferente. Não mau exactamente, mas… menos. Menos saborosos, menos satisfatórios. Fumava por hábito, mas o prazer estava a diminuir. O Dr. Paulo explicou que a bupropiona actua nos receptores de dopamina e noradrenalina, reduzindo o prazer que o cérebro associa ao acto de fumar.
No dia 12 de Maio, fumei o primeiro cigarro de manhã e foi medíocre. Não me deu nada. Apaguei-o a meio e disse à Inês: “Acho que já consigo.” E não fumei mais.
A diferença em relação às tentativas anteriores foi brutal. Desta vez, não fiquei deprimido. Não fiquei agressivo. A irritabilidade existiu, sim, mas era gerível. O Zyban não eliminou a vontade de fumar, mas tirou-lhe a urgência. Em vez de ser um grito desesperado, a vontade era um murmúrio que eu conseguia ignorar. E o mais importante: o meu humor manteve-se estável. Continuei a funcionar no trabalho, a ser presente com os miúdos, a conversar com a Inês sem explodir.
Houve efeitos secundários que tive de gerir. Boca seca nas primeiras duas semanas, que resolvi bebendo mais água. Alguma dificuldade em adormecer, que melhorou quando comecei a tomar o segundo comprimido mais cedo na tarde, às 14h em vez das 16h. E uma leve perda de apetite que, sinceramente, até foi bem-vinda porque ganhei dois quilos nas primeiras semanas sem cigarro e a redução de apetite equilibrou as coisas.
O Dr. Paulo acompanhou-me quinzenalmente durante os três primeiros meses. Monitorizou a tensão arterial, perguntou pelo humor, ajustou quando necessário. Esse acompanhamento médico regular fez toda a diferença. Eu não estava sozinho nisto. Tinha um profissional a guiar-me.
O momento mais difícil foi num casamento que a minha empresa sonorizou em Julho, dois meses depois de ter deixado de fumar. Estava num ambiente festivo, com álcool, com pessoas a fumar na esplanada da quinta. A combinação de festa, noite, álcool e tabaco ambiente era exactamente o cocktail que me tinha feito fumar durante 24 anos. Senti a vontade a subir como uma onda. Fui à casa de banho, lavei a cara com água fria, respirei fundo cinco vezes e voltei ao trabalho. A onda passou. E eu soube que se conseguia sobreviver àquele momento, conseguia sobreviver a qualquer um.
O tratamento com Zyban durou 12 semanas no total. Quando parei a medicação, em Agosto de 2025, já levava três meses sem fumar e os mecanismos de coping que tinha desenvolvido eram suficientemente fortes para me sustentarem sem a medicação. A transição foi suave. Não senti uma vontade súbita de fumar quando parei o Zyban. O trabalho já estava feito.
Agora, em Março de 2026, são quase onze meses sem fumar. Os resultados são visíveis. A apneia do sono melhorou tanto que o meu otorrinolaringologista reduziu a pressão do CPAP. As infecções respiratórias do inverno passado foram zero. Zero. Pela primeira vez em anos, passei um inverno inteiro no Porto sem uma bronquite. A minha capacidade de trabalho melhorou. Consigo montar e desmontar equipamento em festivais sem parar para recuperar o fôlego.
O Martim e a Leonor estão orgulhosos. O Martim, que tem 13 anos, disse-me que já não tem vergonha quando os amigos vêm a nossa casa. Eu não sabia que ele tinha vergonha. Esse comentário partiu-me o coração e, ao mesmo tempo, confirmou que eu tinha feito a coisa certa.
Financeiramente, a poupança é considerável. Um maço e meio de Camel por dia em Portugal custa cerca de 8,50 euros. São mais de 250 euros por mês. Em onze meses, já poupei quase 2800 euros. Esse dinheiro vai pagar férias em família nos Açores este verão, algo que nunca achei que pudéssemos fazer porque o orçamento estava sempre apertado. Parte do aperto era eu a fumar mais de três mil euros por ano.
Para quem está a considerar o Zyban, o meu conselho é: falem com o vosso médico. Não se auto-mediquem. O Zyban não é para toda a gente. Tem contra-indicações, precisa de acompanhamento, precisa de monitorização. Mas para quem, como eu, falhou noutras tentativas por causa do impacto no humor, pode ser a peça que faltava no puzzle.
Tenho 47 anos. Fumei 24. Deixei de fumar há quase um ano. E posso dizer, com a certeza de quem já viveu dos dois lados, que a vida sem tabaco é incomparavelmente melhor. Mais ar, mais sabor, mais energia, mais dinheiro, mais presença. Tudo mais. Nada menos.