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Como o Champix Me Ajudou a Deixar de Fumar no Porto Após 15 Anos

7 min read Updated March 29, 2026

Chamo-me Catarina Silva, tenho 38 anos, vivo no Porto e durante 15 anos fumei com a mesma regularidade com que respirava. Hoje, passados nove meses sem um único cigarro, escrevo isto a transbordar de orgulho e de vontade de ajudar quem está onde eu estava. O Champix mudou a minha vida. E quero contar-vos como.

Comecei a fumar aos 23, quando trabalhava como auxiliar numa loja de roupa na Rua de Santa Catarina. Era o meu primeiro emprego a sério depois da escola e estava rodeada de colegas que fumavam. As pausas eram sempre lá fora, na porta das traseiras, com um cigarro. Eu ia para fazer companhia e acabei por pegar no hábito. O primeiro maço que comprei foi Lucky Strike, porque a Marta, a minha chefe de turno, fumava essa marca e eu achava-a sofisticada.

Com os anos, mudei de emprego. Hoje sou gestora de loja numa marca de decoração no NorteShopping. Subi na carreira, mas o tabaco subiu comigo. Passei das Lucky Strike para as Vogue, depois para as Winston, e nos últimos anos fixei-me nas L&M. Fumava entre 15 e 20 cigarros por dia, dependendo do nível de stress.

O meu dia começava sempre com um cigarro. Antes de tomar banho, antes de comer, antes de fazer o que quer que fosse, o primeiro gesto era acender um cigarro na varanda do meu apartamento em Paranhos. Depois, outro com o café. Outro antes de sair de casa. No caminho para o trabalho, parava no café ao pé do centro comercial e fumava mais um enquanto bebia uma meia de leite. No trabalho, aproveitava cada pausa. À noite, em casa, enquanto via séries no sofá, fumava os últimos quatro ou cinco do dia.

O meu companheiro, o Miguel, fuma também. Isso tornava tudo mais difícil. A casa era de fumadores. Tínhamos cinzeiros na sala, na cozinha, na varanda. O cheiro de tabaco estava impregnado em tudo: nos cortinados, no sofá, nos casacos. Quando os meus pais nos visitavam, a minha mãe abria sempre a janela e dizia: “Parece uma fábrica de tabaco, esta casa.”

Tentei deixar uma vez, há três anos, usando pastilhas de nicotina. Durei exactamente 11 dias. O Miguel continuava a fumar ao meu lado e a tentação era constante. Cada vez que ele acendia um cigarro, a vontade voltava com força. Ao 12.o dia, pedi-lhe um e pronto, voltei ao zero.

O que me fez decidir tentar outra vez foi uma consulta de dermatologia. Fui à dermatologista por causa de umas manchas na pele e ela, depois de me examinar, disse: “Catarina, a sua pele está a envelhecer prematuramente. Tem 37 anos e a sua pele parece de alguém de 45. O tabaco está a destruir o colagénio e a elastina.” E acrescentou: “Nenhum creme no mundo vai resolver isto enquanto continuar a fumar.”

Saí daquela consulta a chorar dentro do carro. Eu sempre me cuidei, sempre investi em cremes, serums, protetor solar. E o tabaco estava a desfazer tudo. Olhei-me ao espelho do retrovisor e, pela primeira vez, vi realmente as rugas à volta dos lábios, as linhas finas à volta dos olhos que não deviam existir aos 37. Era como se o tabaco me estivesse a roubar o rosto.

No dia seguinte, marquei consulta no Centro de Saúde de Paranhos. A minha médica de família, a Dra. Isabel Soares, ouviu-me com atenção e referenciou-me para a consulta de cessação tabágica do Hospital de São João. Lá, fui avaliada pelo Dr. Paulo Moreira, que me recomendou o Champix, a vareniclina.

O Dr. Paulo explicou-me que o Champix actua de duas formas: primeiro, liga-se aos mesmos receptores no cérebro que a nicotina, reduzindo a necessidade de fumar; segundo, bloqueia parcialmente esses receptores, de modo que, se fumarmos durante o tratamento, o prazer é muito reduzido. Ou seja, o cigarro deixa de dar gozo. Quando ouvi isto, pensei: “É exactamente disto que eu preciso.”

O tratamento começou com uma dose baixa na primeira semana, 0,5 mg uma vez por dia, subindo para 0,5 mg duas vezes por dia na segunda semana, e depois para 1 mg duas vezes por dia a partir da terceira. A data para deixar de fumar foi marcada entre o oitavo e o décimo quarto dia de tratamento.

Na primeira semana, ainda fumava, mas já notava a diferença. O cigarro perdia sabor. Era como beber café aguado: o gesto era o mesmo, mas a recompensa não. Ao oitavo dia, decidi parar. Fumei o meu último cigarro à noite, na varanda, a olhar para as luzes da cidade. Disse ao Miguel: “Amanhã começa a minha vida nova.” Ele respondeu: “Espero que resulte.” Não era exactamente entusiasmo, mas eu sabia que ele torcia por mim à sua maneira.

Os primeiros dias foram desconfortáveis, mas não terríveis. Tinha náuseas ligeiras, especialmente de manhã, e o Dr. Paulo tinha-me avisado para tomar o comprimido sempre com comida e água. Segui à risca e as náuseas foram controláveis. O mais estranho foram os sonhos. Sonhos vívidos, coloridos, às vezes bizarros. Uma noite sonhei que estava a voar sobre o Douro num barco rabelo com asas. Acordei confusa, mas achei graça. A Dra. Isabel tinha-me dito que os sonhos vívidos eram um efeito secundário conhecido do Champix.

O desafio maior foi viver com o Miguel, que continuava a fumar. Tive uma conversa honesta com ele: “Não te estou a pedir para deixares. Estou a pedir-te para não fumares dentro de casa e para não me ofereceres cigarros.” Ele concordou e, a partir desse dia, passou a fumar exclusivamente na varanda, com a porta fechada. Não foi perfeito, mas fez diferença.

No trabalho, redefini os meus hábitos. As pausas no centro comercial já não incluíam cigarros. Em vez disso, ia dar uma volta pelo piso de cima, comprar uma água ou um iogurte, e voltava. As minhas colegas de loja foram extraordinárias. A Joana, a minha subgerente, começou a acompanhar-me nas pausas para eu não ficar sozinha. Conversávamos sobre tudo e mais alguma coisa, e aqueles 10 minutos passavam sem que eu pensasse em tabaco.

Ao fim de um mês, fui à dermatologista e ela já notou diferença. “A sua pele está mais oxigenada”, disse-me. “Continuem assim.” Comprei um sérum com vitamina C, que ela recomendou, e comecei a ver resultados. A pele ganhou luminosidade, as olheiras atenuaram-se, o tom geral ficou mais uniforme. Cada vez que me olhava ao espelho e via progresso, a motivação aumentava.

Ao fim de dois meses, comecei a correr. Eu nunca fui desportista, a coisa mais activa que fazia era caminhar do estacionamento até à loja. Mas a minha amiga Susana, que corre há anos, convidou-me para experimentar e eu aceitei. Começámos devagar, no Parque da Cidade, alternando corrida e caminhada. No início, corria dois minutos e ficava sem ar. Ao fim de um mês, já corria 15 minutos seguidos. A sensação de progresso era viciante, no bom sentido.

As 12 semanas de Champix passaram e o Dr. Paulo avaliou que eu podia terminar o tratamento. A paragem foi gradual: reduzi a dose durante a última semana. Quando tomei o último comprimido, já me sentia completamente livre. A vontade de fumar tinha desaparecido quase por completo. Aparecia ocasionalmente, como uma memória distante, mas sem urgência.

Uma surpresa inesperada foi o impacto na minha relação com o Miguel. Ele viu a minha transformação de perto e, ao fim de três meses, disse-me que queria tentar também. Marcou consulta com o mesmo Dr. Paulo, começou o Champix e está neste momento com dois meses sem fumar. A nossa casa já não tem cinzeiros. As cortinas foram lavadas. O sofá foi limpo profissionalmente. O apartamento em Paranhos cheira a lavanda e a café fresco, não a tabaco.

As mudanças que mais aprecio, para além da pele e da respiração, são as mais subtis. O meu sentido do olfacto regressou com uma intensidade que me surpreendeu. Caminhar pela Ribeira e sentir o cheiro do rio, o cheiro do pão quente da padaria Cunha, o aroma das castanhas assadas no Outono. O meu paladar também melhorou. A francesinha da minha tasca preferida na Rua do Almada ganhou sabores que eu já não detectava.

Financeiramente, a poupança foi significativa. Gastava cerca de 160 euros por mês em tabaco. Em nove meses, são quase 1.500 euros. Com o Miguel também a poupar agora, estamos a juntar para umas férias na Madeira, uma ilha que ele sempre quis visitar e que antes parecia um luxo fora do alcance.

Corro agora três vezes por semana. Inscrevi-me para a corrida da Mulher, no Porto, que se realiza em Maio. Treino no Parque da Cidade ao final da tarde, quando a luz é dourada e o mar se vê ao fundo. Às vezes paro no meio da corrida só para respirar fundo e sentir o ar nos pulmões. Um luxo que não me podia dar há um ano.

Para quem está a pensar em experimentar o Champix, quero dizer-vos isto: funcionou para mim de uma forma que eu não julgava possível. O medicamento tirou-me a vontade de fumar de uma forma natural, sem sofrimento extremo. Os efeitos secundários existem, mas são geríveis. E a liberdade que se ganha não tem preço.

Se vivem com alguém que fuma, como eu vivia, saibam que é mais difícil, mas não é impossível. Estabeleçam limites claros, comuniquem as vossas necessidades e não desistam. E quem sabe, talvez a vossa mudança inspire quem está ao vosso lado, como a minha inspirou o Miguel.

Sou a Catarina Silva, 38 anos, do Porto. E posso dizer-vos com toda a convicção: a melhor decisão que tomei na vida foi a de deixar de fumar. Tudo o resto que veio depois foi bónus.