Deixei de Fumar aos 34 Anos com Adesivos e Terapia em Lisboa
Chamo-me Carla Azevedo, tenho 34 anos, vivo em Lisboa e durante 11 anos fumei todos os dias. Hoje, passados oito meses sem tocar num cigarro, posso dizer com toda a certeza que foi a melhor decisão que tomei na minha vida. Quero partilhar a minha história porque sei que há muita gente a passar pelo mesmo que eu passei.
Comecei a fumar aos 23 anos, quando entrei para a faculdade de Direito na Universidade de Lisboa. Sei que muita gente começa mais cedo, na adolescência, mas eu fui daquelas que resistiu durante o liceu inteiro. Os meus pais nunca fumaram, sempre tive alguma aversão ao tabaco. Mas a universidade mudou tudo.
No primeiro ano, o stress das cadeiras, as noites a estudar, os cafés intermináveis na pastelaria ao pé da faculdade, aquele ambiente de convívio nos intervalos onde toda a gente fumava. A minha colega de turma, a Sofia, ofereceu-me um cigarro durante uma pausa antes de um exame de Direito Constitucional. Eu estava tão nervosa que aceitei. E a partir daí, não parei mais.
Rapidamente passei de “fumo socialmente” para um maço por dia. Fumava Marlboro Gold, que era o que a maioria das minhas amigas fumava. Depois da faculdade, comecei a trabalhar num escritório de advogados no Marquês de Pombal e o cigarro tornou-se ainda mais presente. As pausas para café com os colegas eram sempre acompanhadas de um cigarro. Os prazos apertados, os processos complicados, tudo me levava a fumar mais.
Nos últimos anos antes de deixar, fumava cerca de 20 cigarros por dia. Às vezes mais, quando havia julgamentos ou reuniões difíceis. O meu namorado, o Pedro, sempre me pediu para deixar. Ele é fisioterapeuta e tem uma visão muito clara sobre os danos que o tabaco faz ao corpo. Mas eu arranjava sempre desculpas. “Agora não é boa altura.” “Depois deste processo, eu paro.” “Quando tiver férias, penso nisso.”
A verdade é que eu tinha medo. Medo de não conseguir, medo de engordar, medo de perder aquele momento de pausa que o cigarro me dava, medo de ficar irritável e estragar as minhas relações no trabalho. O cigarro era uma muleta emocional que eu usava para tudo: para celebrar quando ganhava um caso, para descomprimir quando perdia, para socializar, para me acalmar.
O momento que mudou tudo aconteceu num sábado de manhã, em Outubro. Eu e o Pedro fomos correr ao Parque das Nações. Eu nunca fui grande desportista, mas tentava acompanhá-lo de vez em quando. Naquele dia, depois de correr nem cinco minutos, tive de parar. Não conseguia respirar. Fiquei curvada com as mãos nos joelhos, a tentar recuperar o fôlego, enquanto pessoas bem mais velhas do que eu passavam a correr normalmente. O Pedro ficou a olhar para mim com uma expressão que não era de julgamento, era de preocupação genuína. E disse-me: “Carla, tu tens 33 anos. Isto não é normal.”
Ele tinha razão. Não era normal. E eu sabia disso.
Na segunda-feira seguinte, marquei consulta na minha médica de família, a Dra. Ana Luísa, no centro de saúde de Benfica. Ela já me tinha falado sobre a cessação tabágica em consultas anteriores, mas eu nunca quis ouvir. Desta vez, fui eu a pedir ajuda.
A Dra. Ana Luísa fez uma avaliação e encaminhou-me para a consulta de cessação tabágica do Hospital Pulido Valente. Lá, fui avaliada pelo Dr. Henrique Neves, que me fez o teste de Fagerström e determinou que o meu nível de dependência era moderado a alto. Ele recomendou uma abordagem combinada: adesivos de nicotina NiQuitin e terapia cognitivo-comportamental.
O plano era começar com adesivos de 21 mg durante as primeiras seis semanas, depois passar para 14 mg durante mais quatro semanas, e finalmente 7 mg nas últimas duas semanas. Em paralelo, teria sessões semanais de terapia com a Dra. Marta Campos, uma psicóloga especializada em dependências.
Marquei a minha data para deixar de fumar: uma segunda-feira, três semanas depois. A Dra. Marta explicou-me que esse período de preparação era importante. Não era simplesmente parar de um dia para o outro. Era preciso preparar o terreno. Ela pediu-me para fazer um diário do tabaco durante essas três semanas: anotar cada cigarro que fumava, a que horas, em que contexto, o que sentia antes e depois. Esse exercício foi revelador.
Descobri padrões que nunca tinha notado conscientemente. O primeiro cigarro da manhã, com o café, era o mais forte em termos de necessidade. Os cigarros no trabalho estavam associados ao stress, mas também à socialização. O cigarro depois do jantar era um ritual de descompressão. E havia cigarros que eu fumava por puro automatismo, sem sequer pensar no que estava a fazer.
A Dra. Marta trabalhou comigo para criar estratégias alternativas para cada um desses momentos. Para o café da manhã, substituir o cigarro por uma caminhada de cinco minutos à volta do quarteirão. Para as pausas no trabalho, levar chá em vez de café e ficar numa zona de não fumadores. Para depois do jantar, experimentar técnicas de respiração profunda.
No dia D, colei o primeiro adesivo NiQuitin no braço e comecei. Os adesivos são estranhos ao início. Sentes que há nicotina no teu corpo, o que ajuda com a parte física da abstinência, mas o gesto de fumar faz falta. As mãos ficam inquietas. A boca fica vazia. É como se faltasse qualquer coisa que não consegues bem definir.
A primeira semana foi a mais difícil. Não pelas sensações físicas, porque os adesivos controlavam isso razoavelmente bem, mas pela parte psicológica. Os gatilhos estavam em todo o lado. O café no escritório, a saída para almoço, a conversa com os colegas que iam fumar. Houve um dia, uma quarta-feira, em que quase cedi. Tive uma audiência que correu muito mal, o juiz foi particularmente difícil, e tudo o que eu queria era fumar um cigarro. Fui à casa de banho, liguei à Dra. Marta e falei com ela durante dez minutos. Ela lembrou-me das técnicas que tínhamos treinado. Respirei fundo, bebi água, e o momento passou.
A terapia foi absolutamente fundamental. Cada semana, eu e a Dra. Marta explorávamos os meus gatilhos, as minhas crenças sobre o tabaco, os meus medos. Ela ajudou-me a perceber que muitas das coisas que eu atribuía ao cigarro, como a calma, a concentração, a sociabilidade, não vinham realmente do cigarro. O cigarro apenas aliviava a abstinência que ele próprio criava. Essa percepção foi como um interruptor na minha cabeça.
Trabalhámos também a questão do peso, que era um medo enorme para mim. A Dra. Marta pôs-me em contacto com uma nutricionista que me ajudou a criar um plano alimentar equilibrado. Ganhei três quilos nos primeiros dois meses, o que me assustou, mas a nutricionista garantiu-me que era normal e temporário. Hoje, passados oito meses, já perdi esses três quilos e estou no meu peso habitual.
A transição dos adesivos foi gradual e bem gerida. Quando passei dos 21 mg para os 14 mg, senti uma ligeira diferença nos primeiros dias, uma vontade mais presente, mas nada insuportável. Dos 14 mg para os 7 mg foi mais fácil. E quando tirei o último adesivo, ao fim de 12 semanas, já me sentia segura. A dependência física tinha sido tratada de forma gradual e a dependência psicológica estava a ser trabalhada na terapia.
O Pedro foi o meu pilar durante todo o processo. Nunca me pressionou, nunca me julgou quando eu estava irritável ou ansiosa. Comprou-me pastilhas elásticas sem açúcar, preparava-me chás à noite, e nos momentos mais difíceis, segurava-me a mão e dizia: “Estou aqui.”
No trabalho, a coisa mais surpreendente foi a reação dos meus colegas. Eu tinha receio de que me excluíssem por já não ir fumar com eles. Mas aconteceu o contrário. A Rita, a minha colega de gabinete, disse-me que me admirava pela coragem e que gostava de conseguir fazer o mesmo. O Dr. Fonseca, o sócio sénior do escritório, que fuma há 40 anos, deu-me os parabéns e confessou que já tentou deixar três vezes sem sucesso.
As mudanças físicas foram aparecendo aos poucos. Ao fim de duas semanas, o meu olfacto começou a voltar. Lembro-me de entrar no Mercado da Ribeira e sentir os cheiros de uma maneira que não sentia há anos. O peixe fresco, as flores, o pão a sair do forno. Era como redescobrir o mundo através do nariz.
Ao fim de um mês, a minha pele começou a mudar. Tenho pele clara e sempre tive um tom meio acinzentado que eu disfarçava com maquilhagem. Esse tom começou a desaparecer. A minha esteticista comentou na consulta seguinte que a minha pele estava diferente, mais luminosa.
Ao fim de três meses, voltei a correr com o Pedro no Parque das Nações. Desta vez, corri 20 minutos seguidos sem parar. Não foi rápido, não foi bonito, mas foi sem parar. E quando acabei, não estava curvada a tentar respirar. Estava a sorrir.
Hoje, com oito meses sem fumar, corro três vezes por semana. Inscrevi-me para a meia maratona de Lisboa do próximo ano. A Dra. Marta disse-me que podia começar a espaçar as sessões de terapia, passando de semanais para quinzenais e depois mensais. Ainda vou, porque acho importante ter esse acompanhamento, mas já me sinto muito mais segura.
Financeiramente, poupei mais de 1.500 euros nestes oito meses. Com esse dinheiro, comprei uma bicicleta e fiz uma escapadinha ao Algarve com o Pedro. Coisas que antes iam literalmente para cinzas.
Se pudesse dar um conselho a quem está a pensar em deixar de fumar, diria isto: não subestimem a terapia. Os adesivos trataram o meu corpo, mas a terapia tratou a minha cabeça. E é na cabeça que o vício realmente vive. Procurem ajuda profissional, não tentem fazer isto sozinhos, e tenham paciência convosco. Não é um processo linear. Há dias maus. Mas os dias bons são cada vez mais, e a liberdade que se sente é indescritível.
Sou a Carla Azevedo, tenho 34 anos, sou advogada em Lisboa, e sou uma ex-fumadora orgulhosa.