Guide

Parei de Fumar no Frio Total Depois de 7 Anos: Minha História em São Paulo

7 min read Updated March 29, 2026

Meu nome é Camila Pereira, tenho 29 anos, moro em São Paulo e faz um ano e oito meses que eu parei de fumar no frio total. Sem adesivo, sem chiclete de nicotina, sem remédio, sem vape. Simplesmente parei. Eu sei que isso soa arrogante, como se fosse fácil. Não foi. Foi a coisa mais difícil que eu já fiz na vida. Mais difícil do que passar no vestibular da USP, mais difícil do que me mudar sozinha pra São Paulo com 21 anos, mais difícil do que qualquer coisa que eu já enfrentei. Mas eu fiz. E se eu consegui, você consegue também.

Comecei a fumar com 22 anos, no segundo ano da faculdade de Comunicação Social na USP, campus Cidade Universitária. Era 2019, eu tinha acabado de me mudar de Campinas pra São Paulo e estava morando numa república no Butantã com outras quatro meninas. Três delas fumavam. A gente estudava até tarde, saía pra balada na Augusta, ia nos bares da Vila Madalena, e o cigarro estava sempre ali. Eu lembro exatamente do primeiro: um Lucky Strike que a minha colega de quarto, a Marina, me ofereceu numa festa na Politécnica. Eu dei uma tragada, tossi, achei horrível. Mas continuei. Porque todo mundo estava fumando e eu queria pertencer.

Em poucos meses eu já comprava meus próprios maços. Comecei com Camel, depois migrei pro Marlboro, e terminei fumando Parliament, que era mais caro mas eu achava mais “sofisticado.” Olha que ridículo. Gastava 25 reais num maço de Parliament pra me sentir sofisticada enquanto destruía meus pulmões. No auge, eu fumava uns 15 cigarros por dia. Não era a fumante mais pesada do mundo, mas pra uma menina de 25 anos, era bastante.

São Paulo é uma cidade que alimenta o vício de fumar. O ritmo acelerado, o trânsito infernal, o estresse do trabalho. Depois que me formei, consegui um emprego numa agência de publicidade na Vila Olímpia. Horários loucos, reuniões intermináveis, clientes difíceis. O cigarro virou meu escape. Eu saía do escritório, descia pro térreo do prédio comercial, ficava naquela calçada da Faria Lima fumando e olhando os carros passando. Eram os meus cinco minutos de paz no caos paulistano.

Meus gatilhos eram o café da manhã (impossível tomar um pingado sem um cigarro), o intervalo do almoço, o estresse do trabalho, e principalmente a vida social. Toda vez que eu ia num bar, numa festa, num churrasco, eu fumava o dobro. E em São Paulo, todo fim de semana tem alguma coisa acontecendo. A vida social era intensa e o cigarro ia junto.

Eu sabia que precisava parar. Minha avó, Dona Tereza, morreu de câncer de pulmão quando eu tinha 19 anos. Ela fumou a vida inteira. Eu vi ela definhando no hospital, ligada naqueles tubos, sem conseguir respirar. E mesmo assim comecei a fumar três anos depois. A gente acha que essas coisas nunca vão acontecer com a gente. É uma ilusão poderosa que o vício alimenta.

Tentei parar duas vezes antes da definitiva. A primeira foi em 2022, resolvi no Ano Novo, como todo mundo faz. Durei cinco dias. A segunda foi em 2023, quando comecei a namorar o Bruno. Ele não fumava e odiava o cheiro. Tentei parar por ele, durei duas semanas, mas quando a gente teve uma briga feia, eu voltei a fumar na mesma noite. Parar por outra pessoa não funciona. Você tem que parar por você.

O momento da decisão real veio em agosto de 2024. Eu estava no metrô, lotado como sempre, linha amarela sentido Butantã. Fazia calor, o vagão estava apertado, e eu comecei a tossir. Uma tosse forte, seca, que não parava. As pessoas ao redor me olhavam com aquela cara de desconforto. Uma senhora do meu lado afastou a bolsa, como se eu tivesse uma doença contagiosa. Eu desci na próxima estação, sentei num banco da plataforma e fiquei ali tossindo por uns três minutos. Quando passou, eu estava com os olhos cheios de lágrima, a garganta ardendo e uma certeza absoluta: eu não podia continuar assim.

Naquela noite eu pesquisei tudo sobre parar de fumar. Li artigos, assisti vídeos, entrei em fóruns. Li sobre adesivos, Champix, Zyban, vape, acupuntura, hipnose. E li também sobre o frio total. Muita gente dizia que era o método mais difícil, mas também o mais limpo. Sem muletas, sem prolongar a dependência de nicotina com substitutos. A ideia me atraiu. Eu sou uma pessoa de tudo ou nada. Quando resolvo fazer algo, vou de cabeça. E decidi que com o cigarro seria assim também.

Marquei a data: 1 de setembro de 2024, um domingo. Escolhi domingo porque teria o dia todo pra lidar com a abstinência sem a pressão do trabalho. Na noite de sábado, fumei meu último cigarro na varanda do meu apartamento no Tatuapé. Olhei pra cidade, as luzes, o barulho, e pensei: “Amanhã começa uma vida nova.”

Domingo foi brutal. Acordei às 6 da manhã, antes do despertador, com uma ansiedade que parecia uma mola apertada no peito. Minha primeira reação foi procurar o maço de cigarro. Mas eu tinha jogado tudo fora na noite anterior. Maço, isqueiro, cinzeiro. Tudo no lixo. Eu sabia que se tivesse acesso fácil, ia ceder.

As primeiras 72 horas foram as piores da minha vida. Eu não conseguia me concentrar em nada. Assistia Netflix e não entendia o que estava acontecendo na tela. Tentava ler e relia o mesmo parágrafo cinco vezes. Minha irritação estava no nível máximo. O Bruno veio me visitar no domingo à tarde e eu quase briguei com ele porque ele mastigava pipoca muito alto. Coitado. Ele aguentou firme, segurou minha mão e disse: “Eu sei que tá difícil, mas eu tô aqui.”

Pra me distrair, eu comecei a fazer coisas com as mãos. Comprei um kit de pintura por números na Kalunga. Pode parecer bobeira, mas ficar ali pintando aqueles quadrinhos minúsculos mantinha minha mente e minhas mãos ocupadas. Toda vez que a vontade de fumar vinha, eu pegava o pincel. No primeiro mês, pintei quatro quadros. Estão pendurados na minha sala até hoje.

Outra coisa que me salvou foi caminhar. Eu morava perto do Parque do Piqueri e comecei a ir lá todo dia de manhã antes do trabalho. Acordava às 5h30, colocava meu tênis e ia caminhar. No começo era devagar, quase arrastando os pés. Depois virou caminhada rápida. Depois virou corrida. O exercício liberava endorfina e me ajudava a lidar com a ansiedade. Em três meses eu já estava correndo na São Silvestre. Não fiz um tempo incrível, mas cruzei a linha de chegada e chorei de orgulho.

No trabalho, a parte mais difícil foi o intervalo. Meus colegas fumantes iam pro térreo e eu ficava na mesa. Nos primeiros dias eu me sentia excluída, como se estivesse perdendo algo. Depois percebi que o que eu estava perdendo era dez minutos de veneno nos pulmões. Comecei a usar esse tempo pra tomar um chá e comer uma fruta. Minha colega Fernanda, que também queria parar, começou a me acompanhar. Ela parou de fumar duas semanas depois de mim, inspirada pela minha tentativa. Isso me deu uma responsabilidade extra: eu não podia recair porque ela estava contando comigo.

A vida social foi o teste mais duro. Duas semanas depois de parar, fui num aniversário num bar na Vila Madalena. Cerveja, música, gente fumando no lado de fora. O cheiro do cigarro me atingiu como um tapa. Meu corpo inteiro queria fumar. Eu senti aquela coceira nas mãos, aquela agitação. Fui pro banheiro, lavei o rosto, olhei no espelho e disse pra mim mesma: “Você não precisa disso. Você é mais forte que isso.” Voltei pra mesa, pedi um suco de maracujá e fiquei. Não fumei. Aquela noite foi minha maior vitória.

O Bruno foi fundamental. Ele nunca me julgou pelas tentativas anteriores que falharam. Nunca me cobrou. Só apoiou. Comprou um umidificador pro quarto porque eu estava com a garganta seca. Fez sopas e chás quando eu não estava me sentindo bem. Me abraçava quando eu chorava de frustração. Ter alguém assim do seu lado faz toda a diferença.

Os benefícios começaram a aparecer rápido. Em duas semanas, meu paladar voltou com força total. Fui comer um pastel de feira na 25 de Março e achei que nunca tinha comido nada tão bom na vida. Em um mês, minha pele estava mais bonita, mais hidratada. As olheiras diminuíram. Minha dentista, a Dra. Patrícia, notou que minhas gengivas estavam mais saudáveis na consulta de rotina. Em três meses, minha capacidade pulmonar tinha melhorado tanto que eu corria 5 km sem parar.

Financeiramente, eu estava gastando uns 450 reais por mês com cigarro. Em quase dois anos, economizei mais de 9 mil reais. Com parte desse dinheiro, fiz uma viagem com o Bruno pra Chapada dos Veadeiros em Goiás. Fizemos trilhas que eu jamais teria conseguido fazer como fumante. Subi cachoeiras, andei quilômetros por trilhas íngremes, respirando aquele ar puro do cerrado. E pela primeira vez em muito tempo, eu senti que estava realmente vivendo, não apenas sobrevivendo.

Hoje eu tenho 29 anos e uma vida inteira pela frente sem cigarro. Ainda sinto vontade de vez em quando? Sim, raramente, mas sinto. Geralmente quando estou muito estressada ou quando tomo uma cerveja. Mas a vontade vem como uma onda pequena e vai embora em minutos. Eu já sei que vai passar. E passa.

Meu conselho pra quem quer parar no frio total: prepare-se. Não é só jogar o maço fora e torcer pelo melhor. Tenha um plano. Saiba quais são seus gatilhos e tenha estratégias pra cada um deles. Tenha pessoas que te apoiem. E principalmente, pare por você. Não pelo namorado, não pela mãe, não pelo médico. Por você. Porque quando a motivação vem de dentro, ela não acaba.

Eu fumei por sete anos. Parei de uma vez. E nunca mais voltei. Essa é a minha história, e eu tenho muito orgulho dela.